A visão de curto prazo está matando as empresas

As companhias têm dado enfoque exagerado aos resultados de curto prazo. Essa postura tem trazido graves problemas. De quem é a culpa?

Reportagem do Financial Times “Empresas dos EUA lucram mais, mas investem menos”, publicada no Valor de 8 de agosto, mostra o descasamento entre lucros e investimentos nos EUA. O artigo sugere diversas causas, mas uma chama especial atenção: a importância excessiva que os executivos têm dado ao curto prazo. Como suas remunerações são atreladas a resultados imediatos, os administradores têm evitado investimentos de risco e reforçado o controle de custos.  Com isso, aumenta-se o lucro sem contrapartida de incremento dos gastos com capital. Estudo de Alexander Ljungqvist da Universidade de Harvard corrobora essa teoria. Empresas de capital fechado de mesmo tamanho e do mesmo setor das empresas abertas têm investido 6,8% do total dos ativos contra apenas 3,7% das companhias listadas, quase o dobro. O estudo mostra ainda que as companhias fechadas são mais sensíveis a oportunidades de investimento. Contudo, esse comportamento se altera após abrirem o capital.

Essa atitude pode ser rentável para o bolso dos executivos, mas é danosa para o futuro das empresas, pois a falta de investimentos compromete o crescimento dos lucros no médio prazo.

Situações semelhantes têm ocorrido no mercado brasileiro onde os administradores da petroleira OGX são acusados de privilegiarem notícias favoráveis de forma a afetar o preço da ação e, com isso, elevar sua remuneração via planos de opções. Mas a OGX não é um caso isolado. Críticas semelhantes foram feitas à HRT e a incorporadoras que apesar de apresentarem resultados operacionais frustrantes distribuíram somas elevadas a seus gestores.

Mas a culpa por essa visão imediatista não é apenas do sistema de remuneração dos executivos. A indústria de investimentos tem uma cultura voltada para a análise dos resultados de curto prazo. Essa sistemática é interessante para a imprensa, por exemplo, pois os resultados trimestrais geram pautas periódicas para os jornalistas. Já as corretoras incentivam o giro da carteira dos clientes baseando-se em análises de curto prazo.

Sou contrário a essa cultura. Primeiro, para quem usa a metodologia do fluxo de caixa descontado com horizonte de 10 anos, um trimestre representa apenas 1/40 do período. Segundo, os departamentos de pesquisa das corretoras reduzem a qualidade do serviço que prestam aos clientes ao alocarem tempo excessivo à análise dos resultados trimestrais, . Lembre-se que cada analista cobre em torno de 20 empresas. Logo computando-se apenas as prévias e os comentários sobre o resultado reportado, cada um deles elabora cerca de 40 relatórios trimestralmente. Poucos trazem algo de interessante atendendo a máxima de que quantidade não é qualidade. Basta se ater as manchetes: “resultado em linha”, “lucro ligeiramente acima das expectativas” … Esse tempo gasto de forma ineficiente poderia ser destinado a relatórios instigantes, que fizessem o investidor se questionar.

Algumas empresas já perceberam que as demandas do mercado têm sido prejudiciais aos seus interesses. Por exemplo, o controlador da Dell Computadores, Michael Dell, preferiu fechar o capital da companhia. Ele acredita que terá mais facilidade de implementar novas estratégias como empresa fechada, pois não precisará atender aos anseios imediatistas dos agentes de mercado – imprensa, analistas, gestores e investidores.

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1 Comentário

  1. Concordo plenamente com está anásile pois o que tenho observado nesses anos todos que faço negócios na bolsa observo que as indicações não atende a visão de longo prazo que é a forma de conseguir resultados satisfatórios.
    Focar o longo prazo e acompanhar o desempenho da empresa que investiu analisando o desempenho é a maneira segura de correr risco calculado e mudando de posição quando os resultados não aparecem.

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