Quanto devo aplicar em ações?

Antes de responder a pergunta do título, cabe outra: o mercado acionário é para qualquer um? Alguns consultores utilizam regras simples, mas, como quase todas as simplificações, o resultado não é satisfatório. Antes de se decidir aplicar em ações é preciso conhecer seu orçamento e a expectativa de gastos futuros.

Ao longo da vida profissional, as pessoas podem alcançar três níveis. O primeiro é o da “subsistência”. O rendimento do trabalho é gasto integralmente nas despesas diárias: alimentação, habitação, educação, lazer. Nenhuma poupança é constituída. Em alguns casos, até falta. Nessa situação, sobras eventuais de caixa oriundas, por exemplo, do 13º salário não devem ser alocada em ações. Esse tipo de investimento requer tempo. Logo, esse dinheiro deve ser colocado em aplicações com liquidez (que possam ser resgatadas a qualquer tempo). O objetivo é apenas proteger os recursos da desvalorização causada pela inflação. Nesse caso, emergem como opções importantes a caderneta de poupança e os fundos de renda fixa (mas atenção: cuidado com as taxas de administração abusivas!).

Com o tempo, alguns profissionais começam a gerar ganhos superiores ao dos seus gastos correntes. Chamo essa fase da “segurança financeira”. Nesse caso, a aplicação em ações pode fazer sentido. Mas a partir de quando? Uma regra boa é dividir sua poupança (não vale incluir o patrimônio que não gera rendimentos como o imóvel de moradia) pelo gasto mensal. Se o resultado for igual a 36, isso significa que o profissional possui três anos de reserva financeira. Nesse caso, aplicar um percentual em ações é indicado. Mas quanto? Aqui não existe uma resposta objetiva. Alguns consultores gostam de aplicar a regra de 110 menos a sua idade atual. Assim se a pessoa tiver 45 anos, a exposição em ações deveria compreender 65% da sua poupança. Mas essa regra é perigosa. Segundo estudos de Ben Inker e Martin Tarlie, da gestora de ativos americana GMO, esse método pode não ser eficaz. Esse estudo foi citado pelo articulista James Swaft da Reuters na reportagem “Repensando os investimentos ao longo da trajetória rumo à aposentadoria” publicada no Valor Econômico em 9 de julho último. Os autores calcularam o desempenho dessa regra, utilizando o mercado acionário norte-americano como referência, desde 1881. A conclusão a qual chegaram é a de que se o investidor atravessar períodos prolongados de baixo retorno, a regra não funciona. O problema , como diz Saft é “que ela pressupõe que os retornos esperados serão constantes no decorrer do tempo”. E finaliza ironicamente: “coisa com a qual, na verdade, só podem contar os que, entre nós, viverão para sempre”. Contudo, além da fragilidade da regra, se o investidor tiver muita aversão ao risco, ele não deve alocar seus recursos em ações de imediato. Antes é necessário se informar. A educação financeira deve reduzir suas apreensões. Ele perceberá que a volatilidade é inerente ao mercado e, como já possui uma reserva suficiente, poderá atravessar momentos negativos do mercado acionário com paciência.

Uma versão mais inteligente da regra 110 menos a idade é balancear os recursos aplicados de acordo com o nível de valorização do mercado. Por exemplo, se a bolsa estiver negociando a múltiplos elevados em relação à média histórica, a proporção alocada em ações deve se reduzir e aumentar nas crises quando o mercado negocia com grandes descontos em relação ao passado.

Enquanto os juros brasileiros forem elevados, a alocação em ações no pais tende a ser inferior a dos países desenvolvidos. Existem excelentes opções fora da renda variável como a dos títulos públicos NTN-B com vencimentos longos que rendem inflação medida pelo IPCA mais 6% a.a. Mas isso não significa que todos os recursos devem fugir da renda variável.

A decisão de quanto o profissional da fase da “segurança financeira” deve aplicar em ações é pessoal, depende do seu grau de aversão ao risco. Mas, o investidor do exemplo com reserva financeira de três anos deve ter ao menos 15% em ações. Percentual inferior denota um conservadorismo excessivo e o afasta dos benefícios da estratégia da diversificação.

O leitor atento deve estar esperando que comente sobre o terceiro nível: o da “independência financeira”. Essa situação é alcançada por poucos e não é necessariamente fruto apenas do trabalho. Por falta de espaço e como o post já vai longe, deixo para uma próxima oportunidade.

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3 Comentários

  1. Olá André,
    Parabéns pelo excelente post.
    Estou aguardando o próximo e repassando a sugestão de leitura do post aos amigos interessados em educação financeira.
    Bom fim de semana,
    Elias

  2. André, excelente artigo!
    Acredito ser muita importância conscientizar as pessoas, inicialmente, sobre as questões da manutenção do patrimônio de reserva. Por exemplo, não é incomum as pessoas sacarem os juros da poupança como forma de renda e ao longo dos anos não perceber que a reserva foi derretida pela inflação. Isso pensando na inflação oficial, em que juros da poupança, com sorte, mantêm o poder de compra das reservas. Enfim, sempre que puder faça mais análises sobre mecanismos que o ‘grande público’ (o micro-investidor) pode utilizar para, no mínimo, preservar as suas reservas.

  3. Parabéns André, excelente artigo. NTN-B a 6%, o que dá mais ou menos 4% líquido, realmente parece um bom negócio.
    Fiquei curioso com a continuidade sobre independência financeira, o que envolve o conceito do que é independência, quanto juntar, como distribuir/alocar, vou ficar no aguardo hein…
    abraço, Rodrigo.

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