O mau uso do dinheiro do IPO ou promessa é dívida

O mercado acionário brasileiro viveu uma onda de empresas abrindo o capital entre 2004 e 2007. Uma das principais razões alegadas pelas companhias para que os investidores investissem em suas ações era o uso dos recursos na consolidação do seu segmento de atuação por meio do crescimento orgânico ou aquisição de concorrentes. Contudo, após alguns anos, pode se perceber que muitas empresas não atingiram esse objetivo. O mau uso dos recursos do IPO não se caracteriza apenas por investimentos de rentabilidade baixa, mas também quando o dinheiro não é utilizado. O caso do Santander é apenas um entre muitos.

Quando uma empresa decide ingressar no mercado pode oferecer suas ações aos novos acionistas de duas formas: por intermédio de uma oferta primária e/ou secundária. Na primeira, os recursos entram no caixa da companhia, enquanto na segunda o dinheiro vai para o bolso dos acionistas originais.

Toda companhia que decide abrir seu capital (IPO, em inglês) deve elaborar um prospecto contendo diversas informações como, por exemplo, de como os recursos levantados serão utilizados. A grande maioria das empresas que vieram a mercado a partir de 2004 informou que usaria o dinheiro captado para crescerem de forma orgânica ou via compra de concorrentes.

Após alguns anos podemos concluir que muitas falharam. Algumas fizeram investimentos que trouxeram baixo retorno o que acabou gerando perda de valor para a empresa. Caso exemplar foi o do setor imobiliário onde empresas como PDG (PDGR3) e Gafisa (GFSA3), por exemplo, lançaram projetos com rentabilidade baixa devido à pressão de custos como mão de obra e terrenos e à inadimplência dos clientes. Outras tiveram pior sorte, sucumbindo como Klabin Segal e Abyara. Também tivemos, em outros setores, companhias que acabaram tendo sérios problemas financeiros como Agrenco e Laep.

Mas o mau uso do dinheiro não ocorre apenas quando maus investimentos são realizados. O não uso também é prejudicial às ações. O mercado não tolera a inércia. Um grupo de empresas deixou os recursos parados em seu caixa. O desempenho das ações também sofre quando o discurso empregado pela administração durante a oferta não é colocado em prática. Em setembro, o banco Santander anunciou a redução de seu capital em R$ 6 bilhões com a distribuição de dividendos extras a seus acionistas. Ora para que então houve a oferta das ações em 2009 se quatro anos depois o dinheiro retorna aos acionistas? Com a operação de emissão de novas ações, o Santander acabou com um nível de alavancagem baixa. Em outras palavras, a companhia fixou com capital ocioso. Como os executivos do banco não conseguiram rentabilizar satisfatoriamente os recursos captados decidiram retornar o dinheiro aos acionistas. Prova de que a oferta1 foi desnecessária. Novos acionistas podem se beneficar da redução do capital, mas os antigos pagaram pela ociosidade dos recursos.

Caso interessante ocorreu com a empresa de logística Tegma (TGMA3). A empresa, relevante no setor automotivo, buscou recursos no mercado para crescer em outros segmentos como o de papel e celulose e alimentos. Contudo, a companhia, por um bom tempo, não fez aquisições, contrariando seu discurso feito no IPO. Apesar de o resultado da empresa ser crescente, pois o segmento de licenciamento de carros novos atravessava um dos melhores momentos da história, os investidores penalizaram as ações da companhia devido ao descasamento entre o discurso feito aos investidores durante a oferta e a sua não implementação.

Assim, tenha cuidado quando alguma empresa solicitar seu dinheiro para fazer aquisições ou crescer organicamente. A não implantação da estratégia vendida aos investidores durante as ofertas tem efeitos danosos sobre o preço da ação. No mercado, vale o dito popular de que promessa é dívida.

1 a operação não foi tecnicamente uma abertura de capital, pois as ações do Santander já eram negociadas na bolsa, embora com liquidez reduzida.

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2 Comentários

    1. Caro João Paulo

      Os recursos são utilizados de forma discricionária pela administração.

      Não há punição caso ela não atenda ao definido no prospecto, mas você levantou bom ponto: não seria cabível um controle por parte da CVM já que a companhia assumiu um compromisso público ao definir sua estratégia de utilização dos recursos no prospecto? Vale um debate sobre o tema.

      Abraço

      André Rocha

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