O departamento de RI das cias precisa se reinventar

A área de relação com investidores (RI) é a porta de entrada da companhia. Ela deve ser a responsável por fornecer os dados necessários para que o investidor, informado, se decida pela compra ou não da ação da empresa. Contudo os RIs da maioria das companhias se contentam em fazer o mínimo: reuniões ocasionais com investidores e divulgação das informações legais exigidas pela BM&F Bovespa e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Isso ocorre porque a maioria dos controladores e da alta direção veem a área como centro de custo e não como de geração de valor para a ação. Conheça alguns pecados cometidos pelos RIs das cias brasileiras.

Qualquer mercado é formado por consumidores e produtos. A qualidade do produto e a sua divulgação via marketing e propaganda contribuem para incrementar a procura dos consumidores pelo produto. Quanto maior a demanda, maior tende a ser o preço do bem comercializado e vice versa. O mesmo vale para o mercado acionário onde o consumidor é o investidor e o produto são as ações. A qualidade intrínseca da companhia representada pelos resultados operacionais é a principal responsável pelo desempenho da ação, mas uma boa divulgação também pode gerar reflexo positivo sobre o preço da ação. Vender-se bem é fundamental, pois a ação de uma companhia disputa a atenção do investidor entre diferentes opções de papel. Esse trabalho deveria ser feito pelos departamentos de RI. Contudo a maior parte das áreas de RI não é proativa, apenas reagem aos acontecimentos. Isso acontece pelos seguintes motivos:

  • Departamento é visto como centro de custo e não de valor – Várias pessoas que já trabalharam ou atendem aos departamentos de RI com quem conversei me disseram que o orçamento destinado para a área é escasso. Com isso, profissionais novos sem conhecimento do mercado financeiro e a ausência de treinamento são apenas reflexo dessa característica.
  • Controladores e direção demonstram descaso com a área – Além do baixo orçamento, a maior prova da negligência com a área é o fato de o responsável pelo departamento ser geralmente também o diretor financeiro. Entre se preocupar com as finanças da companhia e a área de RI, qual seria a sua prioridade, leitor?
  • O departamento é de comunicação, mas possui receio de se comunicar – É comum os departamentos de RI, antes da divulgação de resultados, evitarem os agentes de mercado alegando estarem em período de silêncio. O Comitê de Orientação para Divulgação de Informações ao Mercado (Codim) emitiu, em 2009, um pronunciamento de orientação padronizando “os procedimentos com relação a um período de silêncio antes da divulgação das demonstrações contábeis, como forma de contribuir para a adoção de boas práticas de governança corporativa”. O pronunciamento diz que as companhias não devem “divulgar informações privilegiadas sobre seus resultados, a pessoas fora do âmbito dos profissionais envolvidos, durante o período de preparo e aprovação dessas demonstrações contábeis”. Mas o próprio pronunciamento informa: “Por outro lado, todas as outras informações rotineiras da empresa, devem continuar a ser transmitidas para não prejudicar o acompanhamento de suas atividades pelo público estratégico”. Mas a realidade é diferente. Os departamentos de RI evitam ter qualquer contato com o mercado, escondendo-se atrás do “período de silêncio”. Como há quatro divulgações trimestrais no ano e o período de silêncio é de 15 a 20 dias, o RI não atende ao mercado durante cerca de 80 dias ou 30% dos dias úteis. A essência do pronunciamento está desvirtuada.
  • Departamento precisa entender a atuação das novas mídias – Antes do advento da internet, análises sobre as ações da companhia provinham basicamente da imprensa e das corretoras. Hoje, fóruns virtuais e blogs também emitem opiniões. Esses novos agentes devem ser monitorados diretamente pelo departamento de RI ou pelo burocrático caminho da assessoria de imprensa? Conto minha experiência. O blog “O Estrategista” tem sido tratado como um órgão de imprensa, apesar do meu trabalho pretérito em corretoras e gestoras e de não possuir formação de jornalista. Desnecessário dizer que a colocação de um intermediário entre o blog e o departamento de RI dificulta a obtenção de dados. Com a excessiva burocracia desisto de escrever sobre algumas empresas. A principal perdedora são as próprias companhias, especialmente as de baixa capitalização, que deixam de ter mais um canal de comunicação.
  • Entender a linguagem do mercado é fundamental – Presenciei diversas situações constrangedoras entre profissionais de RI e analistas e gestores. Um exemplo. Na crise de 2008, uma empresa que havia acabado de abrir o capital utilizou parte dos recursos levantados no IPO para recomprar ações no mercado. Um acionista reclamou, alegando que havia dado dinheiro para a aquisição de concorrentes a fim de consolidar o setor de atuação da empresa e não para comprar suas próprias ações. O gerente de RI, sem qualquer conhecimento de como o mercado de capitais funciona, respondeu que a empresa deveria dar liquidez aos papéis, pois havia acionistas vendendo fortemente as ações. A indignação do acionista aumentou ainda mais com a resposta. Um mínimo de treinamento teria evitado o mal entendido. O gerente de RI teria dado uma resposta mais apropriada e verdadeira, como por exemplo, “com a alteração das condições de mercado desde o IPO, não há melhor aplicação para o uso do dinheiro no momento do que comprar nossas próprias ações”.

O blog “O Estrategista” tem buscado preencher essa lacuna oferecendo alguns serviços como cursos explicando aos profissionais de RI como analistas e gestores avaliam as empresas abertas. O curso melhora a comunicação com o mercado e tende a gerar reflexos positivos sobre o preço da ação. Outra iniciativa é elaborar relatórios independentes sobre a companhia, principalmente para aquelas com menor cobertura de analistas, bem como promover reuniões com agentes de mercado. Uma boa comunicação é importante para o desempenho das ações, pois como dizia o apresentador Chacrinha, o Velho Guerreiro: “Quem não se comunica, se estrumbica”.

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As análises, opiniões, premissas, estimativas e projeções feitas neste blog são baseadas em julgamento do analista responsável e estão, portanto, sujeitas à modificação sem aviso prévio em decorrência de alterações nas condições de mercado. O analista de investimento responsável por este blog declara que as opiniões contidas neste espaço refletem exclusivamente suas opiniões pessoais sobre a companhia analisada ou fundos e foram realizadas de forma independente e autônoma. As opiniões contidas neste espaço podem não ser aplicáveis para todos os leitores devido aos diferentes objetivos de investimento e situação financeira específica. O autor não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizados por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Toda e qualquer decisão de investimento baseada nas opiniões aqui expostas é de exclusiva responsabilidade do investidor.

 

2 Comentários

  1. André, a tua análise está absolutamente correta. A alta administração de algumas empresas ainda não percebeu que uma equipe de RI de alto impacto pode ajudar a transformar a empresa. Minha experiência na Natura foi exatamente neste sentido. A minha equipe de RI atuava em forte contribuição no planejamento estratégico da empresa com as informações que eram obtidas em reuniões com analistas e portfolio managers no Brasil e no exterior com “insights” para a condução dos negócios.
    Abraços
    Helmut

  2. Andre, de fato, nos meus tempos de RI era comum ouvir reclamacoes, especialmente do sell side, sobre o despreparo dos RIs de varias empresas. acredito que essa é uma realidade em processo de tranformacao, uma vez que boa parte dos progamas de RI se inciou como uma extensao das areas de assesoria de imprensa e que, em muitos casos, ainda sao percebidos como tal. No entanto, fico satisfeito de poder ter participado da evolucao do programa de RI da Hypermarcas, o qual possibilitou interface direta ao top management da cia, levando os principais inputs dos investidores ao corpo diretivo da mesma, possibilitando discussoes ricas sobre estrategia empresarial. entendo que essa troca é fundamental, porem, considero necessaria ao profissional de RI a sabedoria em separar a volatilifade dos mercados – para cima e, especialmente, para baixo – do dia a dia das cias e de seus diretores, uma vez que em boa parte ds vezes as oscilacoes mais abruptas estao mais correlacionadas a rumores e boatos, em detrimento da atividade operacional das empresas. acredito que o profissional de ri tem sido cada vez mais valorizado, e que as cias tem reconhecido a sua importancia, de modo a buscar pessoas mais preparadas e com formacao de mercado para assumir essas funcoes. Acredito tambem que essa evolucao depende tambem do proprio dinamismo do mercado de capitais, que sabemos nao estar em seu momento de maior pujanca. uma retomada do interesse das cias em abrir seu capital, como em 2007, pode e devera prover um novo estimulo a essa categoria de profissionais – infelizmente, nao parece ser o caso. Por ultimo, gostaria de deixar meus cumprimentos ao Helmut e equipe (Patricia), com quem tive a oportunidade de interagir em algumas conferencias e eventos de bancos a epoca. Abracos

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