O aliado virou algoz dos investidores

Em abril último, escrevi um artigo de alguma repercussão sobre o desempenho dos fundos de ações. Reportagens publicadas ilustravam que nos últimos anos esses fundos, em média, foram capazes de superar os índices da bolsa: Ibovespa, IBrX50 e outros.

A concentração dos indicadores em poucos papéis era, no meu entender, a principal razão da rentabilidade adicional obtida por nossos fundos. O Ibovespa, nosso principal índice acionário, é composto substancialmente de ações de estatais (Petrobras, Banco do Brasil, Eletrobras, Copel e Cemig), empresas de commodities e financeiras.

Mas não fui taxativo. No fim do artigo, deixava essa argumentação em suspenso ao fazer uma provocação: o gestor médio brasileiro obtinha esse bom desempenho em decorrência da qualidade de suas análises ou era realmente da má composição dos índices.

Já transcorridos oito meses, a rentabilidade de nossos fundos em 2016 traz nova luz sobre a questão?

A ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) classifica os fundos de ações em 12 categorias: indexados, índice ativo, valor/crescimento, “small caps”, dividendos, sustentabilidade/governança, setoriais, livre, FMP-FGTS, fechados, mono ação e investimento no exterior. Em 2016, a maior rentabilidade média entre essas categorias, tomando como base a cota de 23 de agosto, foi a da Ações FMP-FGTS com 58,5% e a pior, a da Ações Investimentos no Exterior com 3,8%. Como esperado, a categoria Ações Indexados com rentabilidade de 31,6% foi próxima a do Ibovespa (33,8%).

E como se saíram os gestores das categorias que possuem maior discricionariedade para a escolha dos ativos? Os fundos classificados como Ações Valor/Crescimento apresentaram rentabilidade média de 26,6%, os Ações Small Caps, voltados para ações de empresas menores, 25,2%, os Ações Dividendos, 21,8% e os Ações Livre, 23,5%. Todas essas categorias apresentaram retorno expressivo, mesmo quando comparadas a nossa exuberante taxa de juros primária de 14,25%. Contudo, ao contrário de anos anteriores, perderam para o Ibovespa.

Observando-se os dados de 2016, a tese de que a boa performance dos fundos em relação aos índices de mercado em passado recente foi derivada da concentração do Ibovespa parece ter se mantido em pé. Mas, ao contrário, agora, a concentração prejudicou os fundos.

A generosa performance do Ibovespa em 2016 se deve, em grande parte, a recuperação do preço das ações de empresas estatais. Duramente castigadas pelas políticas desastrosas do governo Dilma Rousseff, bem como vítimas de esquemas de corrupção, o mercado acredita que o novo governo pode incrementar a governança dessas companhias. O início parece promissor com a indicação de administradores comprovados como Pedro Parente na Petrobras e Wilson Ferreira Jr, ex CPFL, na Eletrobras. A indicação de executivos de sucesso era decisiva para a melhora do desempenho das estatais como antecipei no post “Falta um Abilio Diniz na Petrobras” publicado logo após a substituição de Graça Foster por outro executivo de estatais, Aldemir Bendine, em fevereiro de 2015.  Curioso que um partido defensor das estatais tenha feito tão mal a essas empresas.

O reflexo tem se dado no preço das ações: Petrobras PN (PETR4) sobe no ano (até 23 de agosto) 89,1%, Eletrobras PNB (ELET6), 129,6% e Banco do Brasil ON (BBAS3), 53,2%.

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Ações de estatais foram aliadas dos gestores dos fundos em anos anteriores porque bastava ter uma posição em suas carteiras inferior ao dessas ações no Ibovespa para superá-lo. Contudo, a mudança de governo alterou essa dinâmica. Os gestores não foram suficientemente ágeis para recompor esses ativos em suas carteiras, o que se refletiu no pior desempenho desses fundos em relação ao Ibovespa. A concentração desses papéis no Ibovespa, forte aliada dos gestores em passado recente, virou algoz em 2016.

Outra explicação para o pior desempenho dos fundos comparativamente ao Ibovespa pode decorrer da proliferação dos fundos “long biased”, cuja carteira não fica 100% posicionada em ações porque uma parcela encontra-se vendida. Assim, em momentos de recuperação da bolsa, esses fundos tendem a ter rentabilidade inferior ao Ibovespa como explicado no post “Uma alternativa aos fundos de investimento”.

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