Mundo estranho: lucros e investimentos tomam caminhos opostos

Ninguém duvida de que tivemos uma das piores crises do capitalismo em 2008, cujos reflexos ainda permanecem com recessões, juros baixos e liquidez elevada incentivada pelos bancos centrais. Nesse cenário, não há como a economia real passar incólume. Nos Estados Unidos os lucros e os investimentos das corporações que geralmente caminhavam lado a lado, tomaram caminhos opostos. Enquanto os primeiros continuam ascendentes, os gastos com capital despencaram. E no Brasil, como essas variáveis têm se comportado?

A reportagem do Financial Times “Empresas dos EUA lucram mais, mas investem menos”, publicada no Valor de 8 de agosto, mostrou que as empresas têm adotado comportamento pouco usual. Entre 1952 até 1980, lucros e investimentos caminharam lado a lado, representando ambos cerca de 9% do PIB. Essa relação foi mais fraca nas décadas seguintes, mas rompeu-se definitivamente em 2009. Enquanto os lucros engataram uma tendência de alta, atingindo 12% do PIB, os desembolsos com capital despencaram para 4% do PIB.

Embora o lucro seja uma medida contábil, é razoável supor que quanto maior o lucro, maior a geração de caixa e vice versa. Por isso, a relação entre lucros e investimentos geralmente andam juntas. Com maior geração de caixa, parte dos recursos é destinada a investimentos produtivos. Contudo, isso não tem ocorrido.

A reportagem sugere diversas explicações para o fenômeno. Alguns especialistas alegam que, com a crise de 2008, a elevação da capacidade ociosa permitiu que os resultados crescessem sem adição de nova capacidade produtiva. Outros dizem que a perspectiva de baixo crescimento não tem incentivado as companhias a investirem. Já as companhias culpam o excesso de regulação, de tributação e as incertezas de política econômica como restritivas ao investimento.Uma corrente cita o avanço da informatização: a queda do preço dos computadores em relação a outros itens de capital e seu uso mais intensivo explicariam a redução dos investimentos totais da economia. Outra explicação é relacionada a essa última. As estatísticas não tem computado corretamente o avanço dos ativos intangíveis “como pesquisa, desenvolvimento de marcas e melhor organização empresarial”. O economista Paul Krugman advoga tese mais pessimista: “um aumento do poder monopolista” das grandes corporações, cujos resultados crescem por intermédio da diluição de custos e aumento dos preços. Outra teoria fala da importância excessiva que os executivos têm dado ao lucro por ação de forma a aumentar suas remunerações. A visão de curto prazo dos agentes de mercado tem incentivado às companhias a serem eficientes no controle dos custos e a evitarem investimentos de risco. Com isso aumenta-se o lucro sem contrapartida de incremento dos gastos com capital.

E no Brasil? Peguei o índice acionário brasileiro com maior número de empresas, o IBrX, e calculei os lucros e investimentos em relação ao PIB entre 2003 e 2012, Eliminei as companhias integrantes do índice que não apresentaram resultados em todos os anos. Restaram 70 empresas. Durante o período tanto o lucro quanto os investimentos andaram em linha com exceção de 2005, 2012 e 2013 (entre junho de 2012 e junho de 2013). Em 2005, os investimentos caíram enquanto os lucros permaneceram firmes, situação similar a dos Estados Unidos hoje. Contudo, fenômeno inverso ocorreu em 2012 e 2013: os investimentos permaneceram ascendentes e os lucros despencaram.

investimentos crescentes

Minha leitura é a de que os lucros sentiram o efeito da desaceleração da economia. Por outro lado, mudanças na decisão de investimentos não são tão ágeis. Assim, os gastos com capital não foram descontinuados apesar da alteração do quadro macroeconômico.

Essa situação tanto nos EUA quanto no Brasil não é sustentável. Lá, a retenção do lucro ou sua distribuição aos acionistas sem novos investimentos comprometerão o crescimento dos lucros futuros. Como consequência, a proporção do lucro sobre o PIB tende a cair aproximando-se do índice de investimentos. E aqui, investimentos com lucros anêmicos (logo com menor geração de caixa) empurram as empresas para o financiamento dos investimentos via dívida o que apresenta um limite. Assim, caso o cenário não se altere, teremos queda dos investimentos no médio prazo com sua convergência para o nível dos lucros. O crescimento saudável das empresas americanas e brasileiras necessita de uma nova dinâmica.

Em suma, quem lucra não investe e quem não lucra investe. Definitivamente vivemos em um mundo estranho.

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13 Comentários

  1. Caro Andre, me permita a ousadia … mas talvez o PIB nao seja o melhor denominador da fraçao para esse cotejamento.
    considerando q o PIB oscila acharmos um denominador mais estavel pode sim mostrar esse quadro. sugiro usar o Lucro antes do EBTIDA para retirar dele possiveis distorçoes e o investimento se estiver em andamento, os valores estarao espalhados pelo imobilizado e pelo nao exigivel.
    Abs,.

    1. Talvez a resposta, que ainda persiste sem solução, tenha que relacionar a injeção de recursos em Bancos, e consequentemente Empresas….. que os enviaram para o mercado financeiro…gerando lucros. Estão reavaliando, após 5 anos, a crise de 2008, muitas coisas estão sem resposta: regulamentação do mercado financeiro (derivativos); desemprego persistente; ………

  2. André,
    Primeiramente gostaria de dizer que seus artigos sempre são muito bons.
    Neste especificamete tem coisa oculta que na minha opinião precisa ser levado em consideração.
    Houve muita remessa de dinheiro para fora do Brasil, vindo a coincidir com a queda dos lucros apresentados pela Cias. Será que as empresas não esvaziaram os caixas afim de tirar logo do Brasil o capital investido, porém, continuam investindo, visualizando que o mercado é promissor e pretendem tirar mais lucros?

    1. Obrigado, Vilson.
      A remessa de lucros não transita pelo resultado. O efeito das remessas sobre o lucro se dá de forma marginal, pois a redução do caixa gera queda da receita financeira.
      Uma das causas foi a baixa contábil de investimentos antigos ocorrida na Vale e Petrobras, por exemplo.
      Mas a redução do lucro foi generalizada. Quase metade das companhias tiveram queda nominal do lucro entre 2012 e 2011.
      Abraço
      André Rocha

  3. Excelente artigo André, não tinha visto essa abordagem ainda em lugar nenhum!!

    Contudo, a queda repentina nos lucros das empresas brasileiras do IBRX não são resultado das intervenções pesadas que tivemos recentemente, especialmente no setor de energia elétrica?

    Infelizmente uma queda como essa me parece muito mais ser consequência de uma variável exógena, do que por conta do consumo e PIB brasileiro, que apesar de estar bem devagar, ainda está ascendente.

    Grande abraço!

    1. Valeu Felipe.

      Com certeza Vale, Petrobras e as elétricas contribuíram, mas a queda dos lucros foi generalizada. Cerca de metade das companhias tiveram queda do lucro nominal entre 2012 e 2011.

      Abraço

      André Rocha

  4. André: “Minha leitura é a de que os lucros sentiram o efeito da desaceleração da economia.”
    Essa desaceleração reduziu o PIB (denominador) e, por si só, teria elevado o valor da razão Lucro/PIB.
    O gráfico poderia ser explicado então por uma queda relativamente mais acentuada do Lucro.
    Quais custos ou despesas seriam responsáveis por esse resultado?
    Parabéns pela matéria.

    1. Oi Bruno

      O PIB não se reduziu nominalmente. O que houve foi uma desaceleração do crescimento (um crescimento anual menor em relação ao ano anterior). Já o lucro acumulado teve queda nominal. Logo a queda da relação lucro/PIB ocorreu devido à redução do lucro (numerador) e ao aumento do PIB (denominador).

      A queda do lucro foi generalizada atingindo cerca de metade do universo de empresas.

      Abraço

      André Rocha

  5. A impressão que eu tenho é que a taxa de investimento está inversamente proporcional à Selic do período. Seria interessante analisar a abundância de crédito e a influência do BNDES na composição do endividamento também, em especial nos últimos anos.
    Sobre o lucro, o comportamento parece se assemelhar com a evolução do consumo, embora eu não tenha conseguido um gráfico de todo o período para comparar.

  6. Andre Boa Tarde!

    Para “variar” mais um excelente artigo! parabens!

    Bom na minha opiniao, fica mais do que evidente que no nosso caso, podemos observar muito claramente o resultado das gestoes petistas do sr Lula da Silva e Dilma Roussef…Hoje, com olhos mais atentos, podemos dizer que o Lula foi muito mais liberal que a Dilma e que os resultados pifios alcancados pelas empresas brasileiras, tem a ver com o atual modelo economico nacional. Divisao de renda sem aumento de capacidade; Achaque aos grandes grupos nacionais (Petrobras, Vale, bancos, eletricas, siderurgicas) e seus lucros, estao claramente demonstrados em seus numeros. O governo atual, com Dilma e Mantega, nao enche os olhos de ninguem e se temos investimentos em alta e lucros em baixa eh funcao da atuacao do governo, que acha que este lucro que “sumiu”, foi para o bolso dos trabalhadores…Triste, mas mercado de acoes com comunistas no poder, nao vao a lugar algum.

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