Investimento ou tormento? 

Uma política econômica correta deve propiciar a existência de um ambiente de negócios saudável, permitindo que os recursos dos poupadores cheguem àqueles que querem investir.

Intervenções do governo a fim de induzir artificialmente o investimento podem produzir resultados positivos no curto prazo como o aumento do emprego, mas não se sustentam no longo prazo.

Muitos acreditaram no crescimento vigoroso da economia como prometia o governo anterior. A lista é longa. Vai de agentes econômicos modestos como os caminhoneiros a empresas conhecidas como Duratex, Gerdau e Mills.

O incremento da demanda não se materializou, mas o custo do financiamento, mesmo que em muitos casos a taxas atraentes, continuou a impactar negativamente os resultados.

A crise se espalhou por vários setores. A decisão de investir se mostrou equivocada. Mas as empresas não podem voltar ao passado. O que elas têm feito para superar esse momento? 

A fim de incentivar o investimento, o governo de Dilma Rousseff criou vários incentivos como o PSI (Programa de Sustentação do Investimento) e o Moderfrota para a renovação da frota de caminhões.

Com juros inferiores à inflação, tais programas elevaram ainda mais o déficit do governo. A contínua deterioração das contas públicas retraiu o grau de confiança dos empreendedores o que contribuiu para a recessão atual. 

A principal causa da greve dos caminhoneiros foi a elevação do preço do diesel. Contudo, os custos associados à renovação da frota incentivada pelo governo combinado com a falta de demanda também contribuíram para estrangular financeiramente os transportadores. 

A empresa de metais sanitários e chapas de madeira Duratex vem promovendo uma vigorosa venda de ativos de forma a reduzir seu nível de endividamento. Em 2018, vendeu 29,5 mil hectares de terra e 6,8 milhões m3 de florestas por R$ 1,1 bilhão para a empresa de papel e celulose Suzano.

Além disso, criou uma nova empresa em parceria com o grupo Lenzing para a produção de celulose solúvel. A Duratex aportará 43 mil hectares de ativos florestais como capital social na nova sociedade. Tal como os caminhoneiros, a empresa investiu e se endividou a espera de um crescimento de vendas que não se consolidou.  

Ativos ociosos não agregam valor à empresa, daí a decisão de aliená-los. Além de não gerarem receitas, necessitam ainda de gastos com manutenção. Isso sem esquecer os custos financeiros da dívida levantada para a construção ou compra desses ativos no passado. A geração de caixa negativa destrói valor dos acionistas.  

A empresa de alugueis de equipamentos Mills vive situação parecida. Com a queda abrupta dos investimentos na construção civil, suas receitas caíram significativamente. Contudo, boa parte dos custos continua presente. Com a geração de caixa operacional insuficiente, a venda dos equipamentos tem servido para mitigar o rombo. 

A Petrobras foi vítima de investimentos improdutivos como a compra e a construção de refinarias para atender a fins políticos. Esses dispêndios associados com a política de congelamento do preço dos derivados patrocinada pelo governo anterior elevaram o endividamento a níveis perigosos. A solução foi a mesma adotada por Duratex e Mills: vender ativos.

O sindicato dos petroleiros não deveria criticar os desinvestimentos iniciados na gestão de Pedro Parente, mas sim a antiga gestão indicada pelo partido político com o qual compartilham a mesma visão ideológica. 

A siderúrgica Gerdau também estava superdimensionada face à demanda atual e a seus novos interesses estratégicos. Entre 2014 e fevereiro de 2018, a companhia vendeu R$ 6 bilhões entre subsidiárias na Espanha, EUA e Chile e hidrelétricas em Goiás.  

Empresas exportadoras como Vale e Fibria também expandiram recentemente a oferta de minério e celulose, respectivamente. Mas como o grosso da procura por seus produtos vêm do exterior, essas empresas não sentiram os efeitos da recessão local e ainda vem se beneficiando da desvalorização cambial. 

Utilizar o caixa de forma racional é fundamental para a criação de valor. Isso ocorre porque o valor da companhia vem da geração de caixa. Evitar despesas desnecessárias contribui para incrementar o valor da companhia.

A gestora 3G dos antigos sócios do Banco Garantia – Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira – é reconhecida pelo vigoroso corte de custos que impõe às empresas logo após adquiri-las. Mas, apesar da importância do controle dos custos, a maior parte da geração de valor vem do crescimento das receitas. Há duas formas para crescer o faturamento: investir organicamente ou adquirir outras empresas. Daí a importância dos investimentos para as empresas. Mas esse dispêndio de capital deve gerar um retorno que seja superior ao custo de oportunidade.

Os exemplos acima mostram que alguns dos investimentos recentes das companhias brasileiras não foram produtivos. A venda de ativos hoje serve para mitigar os erros de planejamento feitos no passado. Esse é o aspecto negativo. A boa notícia é a de que, com a retomada da economia, muitas companhias poderão aumentar suas vendas sem novos gastos com capital.

A experiência recente ensinou que a prudência com os investimentos é vital para a geração de valor e que mesmo aquisições com dinheiro barato podem custar caro.  

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