Dividendos podem funcionar como suporte para a bolsa

Uma das perguntas mais frequentes em cursos que ministro ou enviadas por e-mail refere-se à hora apropriada para vender ou, no lado oposto, para comprar uma ação. Assistindo a atual queda da bolsa, a dúvida cresce: “já caiu o bastante, devo entrar?”. Observando os múltiplos e o retorno esperado com dividendos de algumas ações, a queda da bolsa deve perder força. A recuperação da bolsa essa semana pode comprovar essa tese.

O investidor comum toma por base a alta ou a queda absoluta de uma ação para decidir se vende ou compra uma ação. Se o preço da ação, por hipótese, avança 100%, o investidor coça as mãos para vendê-la. Mas e se o lucro cresceu na mesma magnitude? Não há razão para se desfazer do papel, pois o preço da ação apenas refletiu a melhora operacional da empresa.

Quando a bolsa ensaia uma queda acentuada como atualmente, a pergunta é inversa: “já não caiu o suficiente? Não é hora de comprar?”. Ao se analisar o retorno com dividendos (“dividend yield”) de algumas empresas tomando-se por base os lucros projetados pelos analistas para esse ano fornecidos pelo sistema de análise fundamentalista S&P Capital IQ, encontramos rentabilidades atrativas como 6% para Petrobras (PETR4) e 7% para Telefonica Brasil (VIVT4). Algumas incorporadoras que apresentavam geração negativa de caixa até recentemente em decorrência dos fortes investimentos começam a gerar retorno aos acionistas como Helbor (HBOR3), Even (EVEN3) e Direcional (DIRR3), apresentando “dividend yield” entre 5% e 7%.

Outro ponto importante a se analisar são os múltiplos P/L (preço por lucro) para 2014 de algumas empresas queridas pelo mercado como Ambev (ABEV3), Localiza (RENT3) e Totvs (TOTS3). Até recentemente, suas ações negociavam a múltiplos de até 30 vezes. Contudo, hoje, estão com indicadores abaixo de 20 vezes: 19,7 x, 19,7x e 16,7x, respectivamente. Caso estivesse vivo, o cultuado gestor Benjamin Graham ainda não as indicaria ao investidor defensivo, mas já poderia sugerí-las aos investidores empreendedores, aqueles mais dedicados ao trabalho de análise. Há um ano, essas ações com múltiplos acima de 25 x não entrariam no radar de Graham de forma alguma.

O mercado ainda corre riscos como a possibilidade de uma queda abrupta do crescimento chinês (“hard landing”), o recrudescimento da crise na Ucrânia ou a necessidade de racionamento de energia no país. Contudo, caso nenhum evento contundente ocorra, os múltiplos atuais e o retorno com dividendos esperados para algumas empresas podem servir de suporte para a queda da bolsa. Essa interpretação parece ter alimentado os ânimos dos investidores na semana que se encerra.

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4 Comentários

  1. André,
    Parece que número de investidores que estão à procura de razões para um movimento de alta está crescendo em razão do esgotamentos dos motivos que levaram às quedas recentes.
    Este movimento é uma das características dos movimentos de recuperação duradoura do mercado de ações ou apenas um ajuste decorrente do esgotamento dos indicadores técnicos, portanto passageiro?
    Um abraço,
    Elias

    1. Oi Elias
      As ações caíram mais do que os fundamentos, tanto que vemos atrativos dividend yields, por exemplo.
      Mas não dá para dizer que a alta é duradoura dado o cenário externo ainda conturbado – China, Ucrânia, Europa – e o interno – inflação, situação fiscal. Mas dá para dizer que caso não haja um evento contundente o espaço para queda é limitado.
      Abraço,
      André Rocha

  2. Andre, boa noite,

    Será que para um investidor de longo prazo não importaria muito mais a manutenção do valor intrínseco da empresa, não importando muito a cotação atual do papel, mesmo porque comprando aos poucos vai se fazendo um preço médio no investimento.
    E não seria muito perigoso basear o investimento tão somente em proventos, como foi o caso recente das elétricas, v.g., Eletropaulo ?
    Forte abraço !
    Carlos

    1. Oi Carlos

      Sem dúvida um investimento não pode se basear apenas nos dividendos. O tema dividendos ocupa espaço grande nos cursos que tenho ministrado, pois o mercado simplifica muito o tema.

      Utilizei o exemplo para mostrar que papéis que não têm tradição de pagar altos DY, após a queda da cotação, já apresentam retornos atraentes.

      Abraço

      André

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