Como escolher suas ações para os próximos anos?

Se perguntássemos a um grupo de gestores quais características as empresas teriam que ter para figurar em uma carteira de ações com prazo de investimento de cinco anos, as respostas não variariam muito. Eles escolheriam empresas que estivessem em um setor com elevada barreira à entrada a competidores, com significativa participação de mercado, com margens robustas e com geração de caixa consistente. Mas isso apenas não basta. De preferência, suas ações deveriam negociar com atrativo potencial de valorização em relação ao preço alvo e com múltiplos depreciados (P/L, FV/Ebitda ou P/VPA). Contudo, empresas com as características definidas acima dificilmente negociam com desconto.  Nesse caso, qual estratégia o gestor deve adotar? Qual tática foi vitoriosa nos últimos anos?

Apesar de você ter ouvido o oposto, a bolsa brasileira tem ido bem nos últimos cinco anos. Os fundos modalidade “ações livre”, nos quais os gestores podem escolher livremente os papéis do portfólio tiveram apenas um ano de rentabilidade negativa – 2011. O mesmo aconteceu com a carteira de ações indicada pelo Valor Econômico mensalmente. O que teve mau desempenho foi o principal índice brasileiro, o Ibovespa, em decorrência de sua composição concentrada em empresas cíclicas e estatais.

Benjamin Graham, o conceituado investidor americano, pregava que se deveriam comprar ações de empresas com resultados consistentes nos últimos anos e negociadas com desconto para seus múltiplos históricos. Graham observava os múltiplos passados e não os projetados. Entretanto, o gestor que adotou tal postura nos últimos anos fracassou. Foram vencedores aqueles que selecionaram empresas de qualidade (forte geração de caixa, estabilidade de resultados, poder de mercado), mas com múltiplos elevados.

As ações que tiveram mais sucesso possuíam resultados consistentes, mas não negociavam com desconto. Os múltiplos P/L (preço por lucro) projetados (e não os históricos como preconizava Graham) se situavam acima de 25 vezes. Graham, de forma alguma, compraria tais papéis. Os vitoriosos nos últimos tempos no Brasil foram os discípulos de outro gestor prestigiado, Philip Fisher. No seu livro “Ações comuns, lucros extraordinários”, ele despreza os números passados das empresas: “O investidor deve, na verdade, ter em mente e se preocupar com os ganhos a serem adquiridos nos próximos cinco anos e não nos cinco anos passados”. Ou seja, Fisher se preocupava com as estimativas de receitas e de lucros ao contrário de Graham que preferia se ater a consistência dos resultados operacionais pretéritos. Fisher via os resultados passados apenas como ferramentas auxiliares, pois o mais importante era tentar prever o futuro.

Com sua postura de buscar pechinchas, Graham acabava por escolher as ações, cujos preços tiveram desempenho inferior à média do mercado nos últimos anos. Dessa forma, seus múltiplos estariam, em regra, mas atrativos. Fisher discordava frontalmente: “Dando grande ênfase às ações ´que ainda não subiram`, eles (os investidores) inconscientemente acabam aderindo à falsa ideia de que todas as ações se valorizam até um mesmo limite máximo, de que aquelas que já subiram demais não terão mais nenhuma outra alta, enquanto as outras que não subiram o suficiente ainda tem algo a ´cumprir`. (…) O fato de uma ação ter tido ou não alta nos últimos anos não é revestido de significado algum para a tomada de decisão de comprá-la no presente”.

E daqui para frente? Com a normalização da economia mundial e a possível vitória de um candidato a presidente menos intervencionista na economia, empresas hoje depreciadas, como, por exemplo, Petrobras e Eletrobras, podem se recuperar, apresentando retorno superior ao das vitoriosas dos últimos anos. Nesse caso, as recomendações de Graham podem vir a ser úteis nos anos vindouros.

A quem você dá razão a Fisher ou a Graham? Como sempre, a virtude está no meio. Vale a pena utilizar as estratégias de ambos na montagem de sua carteira de ações. Encarar seus ensinamentos como complementares e não como excludentes.

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9 Comentários

  1. O problema com meus investimentos foram ações da Petrobrás, Eletropaulo, Cemig e Vale onde o Governo meteu o “bedelho”. Eu preciso é de um programa que me ajude a prever onde o Governo vai se intrometer.
    Sem ele para atrapalhar a coisa anda.

    1. Olha o que você poderia ter feito para minimizar o estrago em seu capital investido é fazer venda descoberta ( exemplo : vendo uma quantidade de ações que você não tem a R$ 3,00 e recompra a mesma quantidade por R$ 2,95 o lucro esta em sua queda ) e com isso poderia até ter ganhado mais dinheiro pois o mercado esta caindo em seu todo.

      1. Ruan
        Não esqueça de que em uma posição comprada, a perda é limitada ao capital investido e em uma posição vendida a descoberto, a perda pode, no limite, ser infinita, pois o preço da ação pode não parar de subir.
        Vendas a descoberto devem ser feitas com muito cuidado.
        Abraço
        André Rocha

  2. Bom dia!

    Sempre acompanho seus textos André e há pouco mais de um ano iniciei meus estudos em educação financeira, buscando melhores investimentos. Creio que há um desconhecimento muito grande da população sobre o que nos espera nos próximos anos. Porém, para quem vai investir a longo prazo, você ainda aposta em investimentos na bolsa? O que fundamentaria esta opção?

    Obrigado e parabéns por nos ensinar algo a mais.

    1. Oi Thiago

      Os valores a serem investidos devem ser aqueles visando a poupança de longo prazo. Para essa parcela dos investimentos, a bolsa faz sentido. Mesmo nos últimos anos, houve diversas ações que tiveram bom desempenho. A percepção negativa para a bolsa brasileira ocorre devido à má performance do Ibovespa.

      Abraço

      André Rocha

  3. André, como sempre, excelentes posts. Acho que um ponto importante seria analisar o horizonte de longuíssimo prazo. Não sei se você tem dados à disposição, mas qual foi o desempenho nos últimos 20 anos dessas estratégias? Será há diferença notável entre elas? Abs!

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