Como a Nova Economia pode afetar a bolsa?

Analistas e gestores desconsideram em suas análises temas de destaque na imprensa como alterações demográficas e o aquecimento global. De que forma o arrefecimento estrutural do crescimento econômico e questões ambientais podem afetar o investimento em ações e na Petrobras em particular?

Esse post não deve interessar aos investidores de curto prazo. Contudo mudanças estruturais da economia podem comprometer o desempenho da bolsa no longo prazo.

A primeira mudança é a possível queda do crescimento potencial das economias dos países desenvolvidos. Algumas razões estruturais podem explicar o fenômeno. Economistas como Robert Gordon, da Universidade Northwestern, do Estado americano de Illionois, vem defendendo a tese de que as grandes invenções como os avanços no saneamento básico e nos transportes são coisas do passado. O futuro é de inovações mais modestas o que tende a reduzir o ritmo do crescimento da produtividade e, com isso, do crescimento da economia. Além disso, o envelhecimento da população atua contrariamente ao crescimento por sobrecarregar o orçamento do governo, reduzindo, com isso, os investimentos públicos. Por fim, a crise de 2008 parece ter eliminado uma importante alavanca do crescimento: o endividamento. Os consumidores e as empresas parecem estar mais conservadores.

Caso se confirme uma evolução mais lenta da economia, as empresas terão mais dificuldades de incrementar seus resultados o que deve afetar o desempenho de suas ações. Segundo o modelo de Gordon, o preço da ação é função dos dividendos distribuídos no ano seguinte (D1), da taxa de juros da economia (k) e do crescimento do lucro por ação (g). Quanto maiores os dividendos e o crescimento do lucro por ação e menor a taxa de desconto, maior o preço da ação e vice versa. Assim, a percepção de que a economia poderá ratear no médio prazo e, como consequência, desacelerar o lucro das companhias terá o efeito de reduzir a rentabilidade da bolsa.

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Outro aspecto negligenciado pelos analistas são as restrições ambientais, tema relevante em épocas de aquecimento global. Martin Wolf, analista econômico do Financial Times, se preocupou com o assunto no artigo “Ajuste climático arruína investidores”, publicado no Valor Econômico de 19 de junho. Segundo Wolf, como “queimar as reservas conhecidas de combustíveis fósseis é incompatível com o crescimento das metas climáticas fixadas pelos próprios governos, (…) os investidores prudentes deveriam aplicar um desconto tanto ao valor dessas reservas quanto aos retornos gerados pelos novos investimentos nesse setor. É possível que boa parte desses gastos adicionais se mostre infrutífera.” Por outro lado, as petrolíferas não vislumbram um cenário de baixo carbono em decorrência do potencial limitado das fontes renováveis em decorrência das dificuldades de produzir em escala, da dispersão geográfica, da intermitência (no caso da energia solar e eólica) e do custo em relação a outras fontes confiáveis. Os investidores, por ora, também parecem não acreditar nos compromissos climáticos assumidos pelo governo não dando qualquer desconto quando analisam as ações de empresas do setor.

Caso levemos em conta esses aspectos, os problemas da Petrobras vão muito além do represamento do repasse de preço dos derivados e investimentos desastrosos como o da refinaria de Pasadena.

Mesmo sob a ameaça de uma ruptura climática que pode afetar a vida no planeta, os investidores não irão se preocupar com aspectos climáticos por enquanto. A falta de uma fonte de energia alternativa viável economicamente continuará favorecendo as empresas petrolíferas. Além disso, os analistas, em seus modelos de “valuation”, estimam receitas pelo período útil dos poços, não adotando um valor para a perpetuidade (*). Assim, a visão de curto prazo, característica do mercado financeiro, deve continuar prevalecendo. Isso não é racional, mas quem disse que o mercado age sob os ditames da razão?

Em relação ao cenário de baixo crescimento, além de controverso, ele deve afetar primeiramente as economias mais avançadas. E se esse for o cenário, o Brasil pode se beneficiar, pois os investidores tendem a procurar as bolsas de países com perspectivas de crescimento, especialmente as de países emergentes.

(*) Como a maioria das empresas continuarão suas atividades após o período de 10 anos usado geralmente na metodologia do fluxo de caixa descontado, os analistas calculam um valor para a perpetuidade com base na geração de caixa do décimo ano. Contudo, para empresas de concessão o período de análise equivale ao da duração do contrato e para petrolíferas e mineradoras à exaustão das reservas.

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2 Comentários

    1. Oi Elias

      Os setores que apresentem menor intervenção na natureza e, no caso de um crescimento menor das economias desenvolvidas, aqueles voltados para o mercado doméstico.

      Mas, como disse no texto, não acredito que essas variáveis, principalmente a do clima, afetem as ações no curto prazo.

      Abraço

      André Rocha

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