As tendências e os modismos do mercado acionário

A análise fundamentalista possui duas abordagens. Na primeira, chamada de “bottom up”, o investidor analisa o desempenho operacional das companhias, selecionando as ações que tendem a apresentar melhores perspectivas levando-se em conta os resultados operacionais da empresa vis-à-vis o preço corrente das ações. O cenário macroeconômico fica em segundo plano. Já na análise “top down”, privilegiam-se as companhias que mais se beneficiarão do contexto macroeconômico traçado. Nesse caso, o cenário econômico assume função primordial, ficando a análise das empresas em posição secundária. Mas é aí que mora o perigo. Quais foram as modas que fracassaram no passado? Qual a tendência atual?

Durante a enxurrada de aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês) ocorridas entre 2004 e 2007, os bancos de investimento utilizaram principalmente a abordagem “top down” para vender as ações das empresas iniciantes. Assim, tópicos como a baixa penetração de um serviço ou produto junto à população, mercados pulverizados, redução estrutural dos juros e atividades voltadas ao mercado doméstico tiveram forte apelo de venda. Esses temas eram mais importantes do que o desempenho operacional das próprias empresas. É o que chamam “tese de investimento”. Mas não compramos setores, mas sim empresas. Quem pode afirmar que mesmo com o cenário favorável, uma determinada empresa obterá sucesso? Para isso é preciso que a administração seja competente para aproveitar os bons ventos. Mas quem pode garantir? O discurso da consolidação é coerente, mas quem diz que as aquisições serão bem sucedidas?

Ao longo da história alguns temas ganharam importância desmedida na decisão de investimentos.

Nos anos 60, a tendência era investir nas “Nifty Fifty”, grandes multinacionais que se beneficiariam da globalização da economia.  Embora algumas continuem poderosas como Coca Cola e Wall Mart, algumas sucumbiram durante o mercado baixista dos anos 70, provando que a escolha correta não era abraçar uma determinada tese de investimento, mas sim escolher boas companhias.

No final da década de 90, a internet era o futuro. Vivíamos o modismo das pontocom. O estouro da bolha da internet mostrou como a abordagem “top down” pode ser falha.

Na década passada, investir nos BRICs, acrônimo para Brasil, Russia, India e China, tinha forte apelo. Os investidores estrangeiros despejavam seus recursos nesses países baseados mais na tese de investimento do que na análise cuidadosa e profunda das empresas. Comprava-se Brasil e não companhias brasileiras.

E atualmente, qual a grande tese de investimento após o fracasso parcial dos BRICs? Os investidores têm privilegiado as ações de consumo. Veja como exemplo os aportes de Jorge Paulo Lehman, Marcel Teles e Beto Sicupira na Heinz, Burger King e Inbev. Faz sentido? Fica para um próximo post.

5 Comentários

  1. Lendo o livro sonho grande e vendo outros exemplos de negócios do trio citado, não acho que estão comprando essas empresas só por ser de consumo.

    No histórico desses caras tem: ALL, Brahma, Lojas Americanas….

  2. Estrategista, realmente o momento é delicado, não basta somente verificarmos o desempenho das empresas, temos que ver o outro “horizonte”, governo no caso da Petrobras e elétricas, STF no caso dos bancos e Vale. Só sei que 2014 promete muitas coisas……….grandes oportunidades e muitos choros.

  3. André,
    Será que o problema não é justamente esse de todos tentarem “descobrir” a tendência certa ? Não me recordo de relatos, histórias ou fatos que atestam o resultado positivo em longo prazo, de seguidores de “tendências atuais” ou então de “idealizadores” de tendências atuais !
    Seja bottom-up ou top-down, ou qualquer outra característica de uma filosofia de investimento, o importante, de fato o que gera resultados, é seguir a sua tendência “ideal” sobre investimentos. A todos aqueles que buscam incansavelmente, a “tendência do momento”, não me resta outra opinião, a não ser afirmar que estão no caminho da maldita “tendência do fracasso”.

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