Ações de consumo não são sucesso só no Brasil

Nos últimos anos, ações de companhias com atividades voltadas ao mercado doméstico e com resultados estáveis tiveram excelente desempenho na bolsa brasileira. Em regra, são empresas voltadas ao consumo como shoppings, alimentos, bebidas e varejo como BR Malls (BRML3), Ambev (AMBV3), Lojas Renner (LREN3) e Hering (HGTX3).  A crise nos países europeus e a claudicante economia americana fizeram com que os investidores apostassem em companhias com essas características. Mas de acordo com estudo do Boston Consulting Group, não foi apenas no Brasil que ações de empresas de consumo fizeram sucesso. Por que isso ocorreu? Há ainda espaço para valorização das ações das empresas desse segmento?

As alterações demográficas e o incremento da renda média ocorridos na economia brasileira nos últimos anos explica a procura por ações de empresas brasileiras do setor de consumo. A entrada de um contingente expressivo de pessoas na classe média tende a impulsionar as vendas e os lucros das empresas ligadas ao consumo com impacto positivo sobre o preço das ações.

Mas apesar da característica peculiar da economia brasileira, ações desse setor também tiveram bom desempenho em países desenvolvidos.

Estudo do Boston Consulting Group com 1,6 mil empresas do mundo todo entre 2008 e 2012, citado em reportagem do Valor Econômico em 4 de dezembro último, mostra que as ações de empresas de consumo foram as que tiveram melhor desempenho entre 2008 e 2012, considerando-se a valorização do papel e a distribuição de dividendos.

Entre as dez maiores valorizações no mundo, aparece a empresa de vestuário brasileira Hering (HGTX3). Apenas duas empresas podem não ser classificadas como do setor de consumo: a filipina Aboitiz Power e a petroleira russa Bashneft.

A consultoria também publicou as dez maiores altas entre as empresas de grande porte com valores de mercado superiores a US$ 50 bilhões. Todas as empresas desse grupo podem, de alguma forma, serem classificadas como de consumo. Entre elas, a de bebida Ambev (AMBV3) se encontra em 2º lugar.

Melhores retornos da bolsa

Uma das razões para esse melhor desempenho do setor se deve à perda de representatividade da indústria nas economias modernas. De acordo com Jorge Arbache, professor da UnB e assessor econômico da presidência do BNDES, em artigo publicado no Valor Econômico em 2 de janeiro de 2014, “o destino da indústria é ceder espaço para o setor de serviços. A história econômica sugere haver um ciclo em que a indústria cresce em participação no PIB até atingir um pico; a partir de então, aquela participação começa a dimimuir”. O setor industrial já chegou a representar um terço do PIB americano. Hoje, participa com apenas 11%. O mesmo tem acontecido com o Brasil. No fim dos anos 80, a indústria representava 35% do PIB. Atualmente, contribui com 13%, enquanto o setor de serviços alcança 70%.

Além disso, como diz Arbache, com o tempo “aumenta a densidade industrial por meio da incorporação de tecnologias e inovações e da interação crescentemente simbiótica com o setor de serviços”. Por exemplo, a Apple poderia ser classificada no setor industrial, pois produz celulares e “tablets”, mas, ao mesmo tempo, apresenta lojas físicas como as Apple Stores e virtual como o Itunes. A brasileira Hering também passou por essa transformação de  indústria têxtil a varejista de moda.

Outra razão para o bom desempenho das ações de consumo foi que os setores de commodities e de bancos sofreram nos últimos anos com as crises dos países desenvolvidos e com preocupações sobre a sustentabilidade do crescimento da China.

Como o setor de serviços possui maior proximidade com atividades de consumo é natural que empresas com essas características tenham dominado as bolsas no mundo.

Esse fato leva a algumas ponderações. A indústria de investimentos tende a valorizar os analistas especialistas em setores voltados ao consumo em detrimento dos profissionais que tenham expertise em setores industriais. Contudo, por outro lado, após anos de forte valorização do segmento de consumo e com a recuperação das economias europeias e americana (prova disso é a normalização da política monetária americana), não chegou a vez das desprezadas ações de empresas industriais, financeiras e de commodities?

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3 Comentários

  1. Boa tarde!

    Boa matéria mas fiquei com uma duvida:

    Como é calculado o TSR (%)???

    Para conferir os valores com essa reportagem peguei os preços da ação da Amazon nas datas 01/01/2008 até 31/12/2012, que foram respectivamente 94,45 e 245,18

    Calculei a taxa de crescimento anual composta (CAGR) – média geométrica anular dos retornos – e o valor deu aproximadamente 26,93% a.a. No artigo valor do TSR (%) da Amazon esta em 22%

    OBRIGADO!

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