A inútil recomendação de “manter” das corretoras

Algumas corretoras americanas não estão cumprindo apropriadamente as regras que regulam suas recomendações de investimentos – “comprar”, “manter” e “vender” – de seus relatórios de pesquisas. Aprenda como o investidor deve agir ao se deparar com essas recomendações, especialmente com a controversa indicação de “manter”.

De acordo com reportagem da Reuters, publicado no Valor Econômico em 3 de outubro último, algumas corretoras americanas estão tendo dificuldades para atender a nova norma da Autoridade de Regulamentação dos Serviços Financeiros (Finra) sobre recomendações de investimento. Anteriormente, a recomendação deveria ser apropriada aos investidores apenas no momento da negociação. Assim, se a recomendação de um papel fosse de “buy” quando o investidor adquirisse a ação, a corretora estaria cumprindo a regra. Contudo, agora, a recomendação deve ser válida em todo o período no qual o investidor mantém a ação. Caso a instituição altere sua recomendação para “sell”, por exemplo, o investidor que ainda a mantém deve ser informado da mudança. Com isso, as corretoras devem ter um controle mais rigoroso sobre seu histórico de recomendações de forma a evitar processos caso os investidores tenham perdas com seus investimentos.

No Brasil, a recomendação só vale para o momento da negociação. O investidor deve acompanhar periodicamente os relatórios de sua corretora para se certificar se a recomendação que deu ensejo a sua transação ainda permanece válida.

Há, em regra, três tipos de recomendação: “comprar” (“buy”, “overweight” ou “outperform”, em inglês), “manter” (”hold”, “neutral” ou “market weight”, em inglês) e “vender” (“sell”, “underweight” ou “underperform”, em inglês). Primeiro, é preciso entender que existe uma diferença sutil entre a recomendação de “buy” e a de “overweight” e “outperform”, assim como a de “manter” é diferente da de “neutral” ou da de “market weight” e a de “vender” não significa o mesmo que “underweight” ou “underperform”.

“Comprar” ou “buy” indica que a ação apresenta expectativa de retorno positivo no médio prazo, “manter” ou “hold” que a ação deve andar de lado e “vender” ou “sell” que o papel deve apresentar rentabilidade negativa no período. Essas recomendações tratam do retorno absoluto do papel.

Já “overweight” e “outperform” indicam que a ação terá um desempenho melhor em relação a um índice de mercado (IBrX, Ibovespa ou MSCI Latam, por exemplo). Caso o índice de mercado esteja em queda, a escolha já foi bem sucedida se a ação cair menos do que o índice de referência. “Market weight” ou “neutral”, por sua vez, indica que a ação deve andar em linha com o índice de mercado. Por fim, quando uma ação é indicada como “underweight” ou “underperform”, ela deve ter desempenho pior do que o do índice de referência. Nesses últimos casos, a rentabilidade é comparada a algum índice, não se trata do retorno absoluto do papel. Prefiro o tratamento relativo ao absoluto.

Algumas corretoras adotam ainda outro enfoque. A posição relativa da ação não é em relação ao índice, mas ao setor a qual pertence. Por exemplo, o setor de bancos pode ter uma expectativa positiva em relação ao índice (“overweight” ou “outperform”), mas uma ação específica (por exemplo, as preferenciais do Santander) pode ter uma indicação de desempenho pior em relação ao setor de bancos (“underweight” ou “underperform”). Logo, o analista deve escolher outra ação dentro do universo de bancos.

Sou um crítico da recomendação “manter” ou “hold”. Vale a pena ter em carteira uma ação, cuja recomendação seja “manter” ou “hold”? Claro que não. Por que ter uma ação com recomendação de “manter” se há tantas outras com recomendação de “comprar”? Brinco dizendo que o “manter” nada mais é que um “sell” tímido, envergonhado das corretoras. Uma forma de evitar atritos com as empresas.

Mais importante do que observar as recomendações, utilize os relatórios para entender como funcionam as atividades da empresa: seus pontos positivos e negativos. Observe quais premissas foram adotadas pelo analista e as substitua caso as julgue pouco conservadoras. Veja como foi o desempenho operacional pretérito e se as projeções são factíveis com o passado. Os relatórios das corretoras podem ser úteis se bem utilizados.

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