A força das expectativas para os investimentos

A decisão de investir compreende diversas variáveis como, por exemplo, o perfil de risco do investidor, o prazo do investimento e a necessidade de liquidez do investidor (ele necessita de uma renda regular ou pode viver sem os recursos advindos da aplicação por um tempo?). Essas informações são objetivas. Com elas, o consultor está quase preparado para indicar um produto financeiro (ou uma carteira de produtos) a seu cliente. Contudo ainda resta um importante atributo que não é apenas estudar o investidor: a expectativa em relação às variáveis econômicas como inflação e juros. Essas expectativas definirão o possível retorno dos investimentos no curto, médio e longo prazos. Além das questões macroeconômicas, deve se observar a capacidade financeira do emissor. No mercado acionário, a expectativa é ainda mais relevante, pois deve se atentar se essas variáveis já estão sendo levadas em conta pelos agentes de mercado.

No último dia 27 de julho, a Vale divulgou seu resultado trimestral. O lucro, no segundo trimestre, foi de R$ 3,58 bilhões, queda significativa de 30% em relação ao mesmo período de 2015. Um ponto negativo do balanço foi a provisão de R$ 3,7 bilhões – cerca de 4% do valor de mercado da empresa (quantidade de ações multiplicado pela cotação) – referente ao acidente ocorrido com a barragem de sua controlada Samarco em Mariana. Mas apesar dessa perda, o preço da ação preferencial, no pregão seguinte à divulgação dos resultados, teve pequena queda 0,8% enquanto a ordinária teve alta de 0,6%.

Por que o mercado não levou em conta uma provisão tão significativa? O mercado já tinha levado essa perda em consideração. A expectativa dos agentes de mercado era a de que uma provisão seria feita. O rompimento da quebra da barragem da mineradora Samarco ocorreu no fim de 2015. Já vinha sendo exaustivamente coberta pela imprensa. Logo os agentes de mercado – analistas e gestores – já estavam atentos ao problema. Não houve uma quebra de expectativas. A provisão efetuada pela companhia não causou surpresa e, com isso, a cotação não sofreu abalos.

O investimento em ações é extremamente dependente das expectativas. O preço justo da ação, em regra, é calculado pelo modelo de fluxo de caixa descontado no qual a geração de caixa futura da empresa é trazida a valor presente a uma determinada taxa de desconto. Após essa etapa, o valor alcançado é dividido pela quantidade de ações. Assim, caso a expectativa dos juros se altere, o preço justo também se modifica. Se os juros crescerem, o preço alvo se reduz e se caírem, o preço justo se eleva.

O Brasil passa por um momento especial. Com a destituição da presidente Dilma Rousseff e a confiança de que políticas econômicas mais consistentes serão implementadas pelo novo governo, algumas variáveis macroeconômicas tiveram alterações, principalmente o dólar. A valorização da moeda brasileira sobre o dólar é uma das principais responsáveis pela má performance das ações das empresas que direcionam boa parte de seus produtos para o mercado externo como é o caso das empresas de celulose: Fibria, Suzano e Klabin. A expectativa de que o novo governo reduza o déficit fiscal tende a tornar o real mais apreciado o que prejudica a receita dessas empresas e, por consequência, o lucro.

Mas se o dólar afeta as receitas das exportadoras, a possível melhora do ambiente econômico tende a elevar o faturamento das empresas com foco no mercado doméstico. Com isso, o preço alvo dessas companhias se elevou.

É por isso que o Ibovespa apresenta uma valorização superior a 30% em 2016. A expectativa do mercado em relação à economia se alterou substancialmente com a troca de governo. Com essa mudança tem-se novas projeções para juros (especialmente os juros de médio e longo prazos) e crescimento econômico. Isso gera dois efeitos favoráveis ao preço alvo das companhias: (i) os fluxos de caixa das empresas tendem a melhorar devido ao maior crescimento e (ii) os juros mais baixos reduzem a taxa de desconto. Daí a explicação para a alta da bolsa.

Essa reviravolta de expectativas não acontecia desde 2002 quando o mercado possuía receio do governo do PT, preocupação que se mostrou infundada. Isso durou até o governo de Dilma Rousseff surgir em 2010 e implementar medidas sem qualquer consistência tanto em termos macro quanto microeconômicos (basta lembrar a medida provisória que renovou as concessões de geração elétrica e a compressão do preço dos derivados de petróleo que dizimou o caixa da Petrobrás).

Mas o mercado pode se decepcionar caso o novo governo não consiga implementar reformas indispensáveis que visem à redução dos gastos públicos. A lua de mel do mercado com o governo Temer pode se encerrar. Caso a nova administração fracasse, a reversão das expectativas fará o Ibovespa se desvalorizar.

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