A esquizofrênica indústria de investimentos

Imagine que você fez uma viagem ao exterior e se deparou com produtos de alta qualidade e, melhor, baratos. Mas a grana estava curta e você não pode aproveitar a oportunidade. Tempos depois, você retorna ao mesmo lugar e, dessa vez, prevenido, leva dinheiro para ir às compras. Contudo, para sua decepção, os mesmos produtos que antes eram barganhas estão bem mais caros. Essa metáfora serve para exemplificar a situação do gestor de fundos, por exemplo. Nas crises, quando ativos de qualidade como ações, títulos públicos e privados se encontram depreciados, o gestor não recebe dinheiro novo dos clientes para adquirir as pechinchas. Pelo contrário, os investidores resgatam seus recursos, fazendo com que o gestor siga a manada vendendo os ativos baratos que fazem parte do fundo. Por outro lado, em momentos de calmaria, os ativos estão bem precificados e, em muitos casos, acima dos seus valores justos. É nessa hora que os gestores são agraciados com novos recursos sendo aportados no fundo. Esse administrador de carteira, embora reticente, vai às compras, contribuindo para tornar os ativos ainda mais caros. Por que é tão difícil fazer o certo: comprar na baixa e vender na alta?

Essa característica pró-cíclica é comum a qualquer classe de ativos. Nos fundos “private equity”, aqueles que investem em empresas fechadas, ocorre o mesmo. Quando os ativos estão depreciados não ocorrem novos aportes. Mas basta o cenário clarear para os investidores correrem para esses fundos.

O mercado acionário parece ser o que mais sofre com a irracionalidade dos agentes. Volátil por natureza, o valor de mercado das empresas oscila ao sabor das notícias. O que é preciso entender é que a empresa possui dois valores distintos: quanto ela vale realmente, representado pelo valor justo e o valor corrente definido pelas interações entre as ordens de compra e de venda, o valor de mercado. O valor justo não tende a sofrer grandes oscilações ao longo do tempo, mas o valor de mercado é vítima dos humores dos investidores e das notícias. Assim, é preciso ter em mente, não o valor de mercado, mas o valor justo. Quando o valor de mercado ficar muito abaixo do valor justo, aí sim, a compra deve ser feita. Adotando essa estratégia, o investidor diminui o risco do seu investimento. E, em regra, o valor de mercado fica atraente em momentos de crise.

Você já deve ter escutado falar na NTN-B, título público federal vendido no Tesouro Direto. Esse título rende o índice inflacionário IPCA mais um cupom, que nada mais é do que os juros reais. Pois bem. Atualmente a NTN-B principal com vencimento em 2035 que não distribui juros ao longo do investimento está pagando IPCA mais 6% ao ano. Há cerca de dois anos, os juros reais estavam menores do que 4% ao ano e o interesse pelo ativo era grande. Hoje, a demanda é bem menor porque o investidor está preocupado com os rumos do atual governo. Esse receio é irracional. Caso ele mantenha esse investimento até o vencimento, os juros de 6% ao ano estão garantidos. O único risco seria um calote do governo, evento que não ocorreu nem durante o Plano Collor. Alguém pode alegar: “mas faltam 21 anos!” Para quem já passou dos 40 sabe que “a vida é como um rato passando na sala” como diz o dramaturgo Domingos de Oliveira. O tempo simplesmente voa. Por isso, não faz sentido para um investidor de 45 anos que já tenha uma reserva substancial, adquirir esses títulos e tentar carregá-los até a sua aposentadoria aos 66 anos? Com o aumento da expectativa de vida e como a maioria da população não possui um sistema previdenciário que garanta o salário integral da ativa na aposentadoria, pensar no longo prazo é essencial.

As finanças comportamentais tentam responder a esse instinto de manada do investidor. O ser humano é gregário. Ele quer pertencer a um grupo. Assim, como comprar algo se a maioria das pessoas está fazendo o contrário? Além disso, ninguém gosta de perder sozinho. Imagine se o ativo micar e você for o único a amargar o prejuízo! Já se você vender junto com a maioria, foi “esperto”. No sentido inverso, caso o ativo se aprecie, você não ganhou, mas a maior parte dos investidores também não.

É difícil conviver com manchetes negativas e pensar o longo prazo. Além disso, as novas mídias amplificam o noticiário. O presente acaba dominando. Isso tem gerado uma postura de curto prazo tanto dos gestores quanto dos investidores. Em apresentação no 7º Congresso Value Investing Brasil, realizado em São Paulo há duas semanas, Luiz Francisco Guerra da “family office” Pragma Investimentos mostrou dados interessantes sobre a indústria de fundos norte americana. Em 1945, um gestor mantinha os ativos em média por um período entre seis e sete anos. Hoje, esse prazo se reduziu para apenas um ano. Mas essa ansiedade não atinge apenas os gestores. Os aplicadores mantêm as cotas de seus fundos, na média, por apenas dois anos.

Em uma palestra, Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex ministro das telecomunicações e atual sócio da Quest Investimentos, mostrou como a experiência conta para encarar momentos turbulentos: “Tenho 70 anos. Não acredito mais no fim do capitalismo nem no fim do mundo”.

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9 Comentários

  1. Excelente post! Felizmente, quem olha o longo prazo tem o tempo a seu favor! Chega a ser engraçado ver como crises “homéricas” tornam-se irrelevantes num prazo de 10 anos, por exemplo. E aqueles que dizem “no longo prazo, todos estaremos mortos” são aqueles que mais irão se arrepender de decisões tomadas com foco apenas no curto prazo… Abraços!

  2. O risco que vejo hoje (e gostaria que o André comentasse) nas NTNB, é a da possível maquiagem do IPCA. Em um momento de estresse, o governo do momento poderia “decretar” que a inflação é menor do que realmente é (vide Argentina). Nesta hora, o papel vai virar pó.
    Achava que nenhum governo brasileiro teria coragem ou cara de pau de fazer isto, até o recente manifesto do corpo técnico do IBGE, que ameaçou se demitir em massa, por interferência política na composição de um de seus índices.
    E, de hoje até 2035, o risco de termos uma combinação crise econômica+ governo populista não me parece desprezível.

    1. José,

      Achei sua observação bastante válida e só reforça a disciplina que somos obrigados a ter para manter o patrimônio. Se as suas pesquisas demonstrarem que o IPCA está sendo ‘maquiado’ (via avaliação externa, uma agência de risco conceituada vai publicar isto certamente), então vai ser hora de se livrar dos títulos e procurar outros ativos para se livrar desse risco conjuntural. Possivelmente uma estratégia seria deixar uma parte do patrimônio nos títulos brasileiros e outra em ativos com de melhor classificação de risco [chutando bem alto, um título americano de 30 anos (para casar com o prazo da NTN-B), por exemplo] porém com ganhos menores.

  3. Olá André.
    Você sabe me informar se há tradução para o português do livro “Best Practices for Equity Research”, do autor James J. Valentine?
    Você já ouviu falar ou conhece o livro “Análise de Demonstrações Financeiras e Avaliação de Ativos”, do autor Stephen Penman? Se sim, recomendaria a leitura?
    Obrigado e parabéns por mais um post interessante.

    1. Oi Herbert
      Acredito que não haja tradução do livro do James Valentine.

      E não conheço o livro que voce mencionou. Mas tome cuidado, pois a contabilidade americana possui diferenças para o IFRS, embora sejam menores do que as existentes no passado.

      Abraço

      André Rocha

  4. Como sabemos, a teoria de vender na alta e comprar na baixa é a mais simple e dificil de aplicar por um iniciante,

    o classico é se interessar pela bolsa na alta, perder dinheiro, e então procurar educação financeira, estou certo ou não::::

    Cedo ou tarde mesmo os mais leigos percebem que é possível lucrar com o mercado.

    Sdds

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