A bolsa e as expectativas (nem sempre racionais)

O torcedor, que fica horas na fila para comprar o ingresso para a final do campeonato, não imagina que seu time possa ser derrotado no domingo. Não passa pela cabeça do casal alegre que sobe ao altar a possibilidade de o enlace terminar em um divórcio litigioso. O investidor também não espera perdas em suas aplicações ao dirigir suas reservas ao mercado acionário. Contudo, expectativas exageradas, muitas vezes irracionais, são as causas de grandes fracassos.

O participante de um curso que ministrei fez o seguinte comentário: “Quando vejo minha ação subindo muito, quero logo vender, estou agindo certo?”. A psicologia econômica por meio da teoria da perspectiva explica o comportamento desse investidor. Em situações com possibilidade de ganhos, o ser humano tende a ser conservador, evitando perdas a qualquer custo. Já, ao contrário, em caso de prejuízo, ele passa a ser agressivo, buscando recuperar o dinheiro perdido. Mas antes de optar pela venda seguindo o instinto, é preciso avaliar a situação. Se, por exemplo, não somente o preço da ação, mas também o lucro da companhia dobrou no período, não há razão para pressa. O múltiplo P/L (preço por lucro) se manteve constante. O preço da ação apenas acompanhou o melhor desempenho operacional da companhia. Por outro lado, se a cotação subiu, mas o lucro ficou constante, é sinal de que o mercado espera que os resultados melhorem no médio prazo. O bom desempenho da ação é baseado em expectativas e não nos resultados correntes. A expansão do múltiplo indica que os investidores estão otimistas e estão pagando antecipadamente pela melhora operacional. E é aí que reside o perigo. Caso a administração frustre as expectativas do investidor, o preço da ação tende a cair com a mesma velocidade com que se apreciou.

A bolsa brasileira está cheio de casos recentes nos quais os preços das ações se elevaram com base apenas nas expectativas dos agentes. Veja alguns exemplos:

1) OGX – a tese de investimento da petroleira foi sempre baseada em promessas. Sem qualquer resultado operacional, detentora apenas de concessões, as ações apresentaram forte valorização após a abertura de capital (IPO, em inglês) suportada pelo discurso otimista da companhia e pela figura carismática do seu controlador. A complexidade e a particularidade técnica do setor de petróleo também contribuíram para dificultar a análise da empresa. Uma análise fundamentalista criteriosa teria evitado dissabores, pois suas principais métricas de avaliação – fluxo de caixa descontado e múltiplos – eram ineficazes para uma avaliação segura.

2) BRF – Mostrei no post “BRF: ações avançam, resultados não”, de 18/02/2013, que, logo após a união entre Sadia e Perdigão, as ações da companhia brasileira apresentavam múltiplo FV/Ebitda inferiores aos de empresas globais como Nestlé e Danone. As margens operacionais da BRF também eram menores. Após três anos, embora a margem da BRF permaneça inferior e tenha até mesmo caído em relação à de 2010, suas ações passaram a ter múltiplos em linha com os das competidores globais. O que explica esse comportamento das ações? Expectativas positivas. O mercado “comprou” o discurso da antiga administração de transformar a BRF em uma empresa global e “pagou” antecipadamente por isso.  A entrada de Abilio Diniz e de Cláudio Galeazzi na companhia, posteriores a edição do meu post, reforçaram ainda mais o otimismo dos investidores. Mas as ações não se movem indefinidamente baseadas apenas em discursos. É necessário resultados. Com a divulgação de um frustrante terceiro trimestre, as ações em três pregões caíram quase 7%. Em meio à troca de acusações entre a atual e a antiga administração retratadas em reportagens do Valor como “Abilio diz desentortar BRF; ações despencam” e “Nildemar rebate as críticas de Abílio”, o investidor deve ser apartidário e esperar o que realmente interessa: resultados concretos.

3) Hypermarcas – a companhia abriu o capital com o propósito de promover a consolidação de diversos setores: materiais de limpeza, alimentos, medicamentos. O mercado aplaudiu a estratégia, impulsionando o preço da ação. Contudo, os recursos dados pelos acionistas à companhia não se traduziram em crescimento do lucro por ação. As ações desabaram em 2011. Após remodelar sua tática, as ações se recuperaram.

4) Kroton – As expectativas não são sempre frustradas. A empresa do setor de educação tem entregado resultados consistentes e suas ações têm sido premiadas pelos investidores.

Embora, cada caso citado anteriormente tenha sua particularidade, eles mostram que o bom desempenho baseado apenas em expectativas otimistas devem ser vistas com cuidado. Como mostrou o prêmio Nobel Robert Shiller, o movimento das ações no curto prazo podem se descolar dos fundamentos da companhia, mostrando que o mercado não é eficiente. Contudo, no longo prazo, os lucros e os dividendos são as variáveis críticas para o desempenho das ações. Discursos otimistas agradam os investidores por um tempo, mas apenas a sua materialização em fatos concretos importam no longo prazo.

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10 Comentários

    1. Fabio, desculpe me mas nao concordo. Os americanos colocam 50% de suas poupancas em um cassino?
      Convido o para o meu curso, acredito que voce vera que ha tecnicas por tras da analise. A derrocada de OGX pode ser facilmente explicada. O conhecimento teria evitado apostas como essa, por exemplo.
      Abraco
      Andre Rocha

      1. A Bolsa esta muito longe de ser um casino !
        Eu custo a entender, porque tanta gente acha que a “bolsa” é importante ! O que importa é o que é negociado lá. É impressionante como as pessoas acham que preço de cotação é o principal indicador de sucesso ou fracasso em investimento.
        Se os “pseudo” investidores, fossem “analistas de negócios”, se concentrando em entender de tipos de negócios, seus riscos, seus pontos fortes e fracos e suas perspectivas, a bolsa seria apenas o último passo, aonde se decidiria em ir até lá comprar ou vender, literalmente a “prateleira” do mercado.
        Mas a grande maioria pensa apenas em achar algo que de um retorno alto com risco baixo !

      2. Apesar de desconfiar de alguns movimentos de mercado, devo concordar com o autor quando reitera que a relação preço X valor, por vezes, é prejudicada no curto prazo. Porém, ao longo do tempo, essa divergência é corrigida pela análise dos resultados.

    2. Muita gente no Brasil ainda considera a bolsa como um cassino, mas se esquecem q em relação ao lucro do ano passado as empresas do IBOVESPA distribuíram 61,5 bilhões e isso permite tranquilamente uma operação ganha-ganha, ou seja, quem vendeu ganhou e quem comprou vai ganhar -> proventos! Além disso há o ganho pelo simples crescimento da receita ou da valorização do ativo permanente. Quem se guia pelos fundamentos não vê a bolsa de forma alguma como um cassino, mas certamente existe o imponderável, imagine um agricultor q joga a semente na terra, muitas coisas podem ocorrer antes da colheita, pragas, seca, alagamentos, dificuldades p/ escoamento, etc e nem por isso as pessoas veem a agricultura como cassino, então pq consideram a bolsa de forma diferente e preconceituosa?

      1. Valorização do ativo permanente? De que forma? Ativo se deprecia, e para que se aumente a vida útil (e portanto o valor do ativo) é necessária despesa com melhorias. Até onde ser, os únicos ativos que podem ser valorizados são participações acionárias ou ativos imobiliários marcados a valor de mercado (nas situações em que é permitido considerá-los como investimento, e não ativos operacionais). Estou errado?

        1. Não sei se o Domingos quis dizer ativo permanente exatamente ou se ele queria dizer patrimônio líquido. Mas, mesmo assim, investimentos em participações acionárias e terrenos também ficam no ativo permamente.

  1. A Bolsa de Valores seraa um caminho incontornavel para a maioria dos brasileiros no dia em que a nossa economia se acertar e tivermos taxas de juros de primeiro mundo. Se isso acontecer, os rendimentos em renda fixa serao tao pequenos que os rendimentos das acoes serao “descobertos”?! Nos USA, 50% aplicam em acoes por

  2. Para quem entra na bolsa com um intuito de ser socio de alguem, a bolsa estah longe de ser um casino. Todavia, aquelas pessoas que entram achando qua vao enriquecer da noite para o dia, fazendo muito day trade, etc e tal…isso sim, pode ser comparado a um casino.
    Quanto ao assunto do artigo em si, ele eh muito pertinente e deve ser levado muito em conta para quem entra neste mercado. Aprendi a duras penas que o Stop Loss eh para ser usado sem moderacao e que voce tem que estipular sim, ganhos para um dado papel. Sobretudo na analise temporal…Ou seja, quanto pretende ganhar e em quanto tempo?! Esta pergunta tem que ser respondida antes mesmo de voce comprar um dado papel.

  3. Deve-se considerar as características inerentes a cada país no momento de considerar se investe ou não na bolsa. Uma das linhas de estudo de economia comportamental e mental accounting preconizam exatamente isso. Em minha opinião nenhum mercado é totalmente racional, basta analisarmos bem sob a ótica do texto do (agora Nobel), Eugene Fama. O mercado Brasileiro, principalmente o de pequenos investimentos em ações está mais para um modelo extremamente impulsivo, onde comportamentos dos tomadores de decisão interferem no processo de precificação e/ou compra e venda.

    É assim que se criam bolhas, como as OGXP3, com excesso de confiança e euforia de mercado, e pouca informação racional sobre risco.

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