Não existe um preço-alvo único e imutável

Preço-alvo, preço justo, “target price”, “fair value”. O nome não importa. Todo relatório de corretora apresenta o valor intrínseco da ação, o preço que a ação deveria valer. Esse valor nada tem a ver com a cotação de mercado. O preço em bolsa pode estar acima ou abaixo do preço justo. Considerando-se que os investidores sejam racionais, se espera que, no médio prazo, a cotação se iguale ao preço justo da ação. Contudo, cuidado, pois o preço justo pode variar muito dependendo das variáveis utilizadas. Cada investidor pode ter seu próprio preço justo. Assim, ao se deparar com o preço-alvo sugerido pela corretora saiba que aquele valor é apenas uma referência.

A técnica mais utilizada para o cálculo do valor justo de uma empresa é o fluxo de caixa descontado. Traz-se a valor presente a uma determinada taxa de desconto, o fluxo de caixa futuro da empresa. Aqui entra a primeira complicação. Mesmo que dois investidores utilizem as mesmas premissas de crescimento para a geração de caixa, caso um deles adote uma taxa de desconto maior, o seu preço justo da empresa será menor do o do outro investidor. Mas por que os investidores utilizariam taxas de desconto diferentes? Há diversas razões que explicam essa atitude.

Na edição do Valor Econômico de 28 de janeiro, a reportagem “Negócios com terras perdem vigor no país” mostra um exemplo bem interessante. O texto fala que os preços do hectare de terra apresentaram crescimento modesto em 2013. A primeira razão para a estagnação do preço da terra se deve a restrição à compra de terras por investidores estrangeiros. Esses poderiam pagar preços maiores pela terra brasileira porque conseguem financiamento a juros menores do que os nossos. Além disso, as alternativas de investimento no exterior apresentam taxas de rentabilidade baixas. Logo, esse tipo de investidor poderia utilizar uma taxa de desconto menor e, por isso, oferecer um preço pela terra maior do que as proposta feitas por brasileiros. Além da taxa de desconto, a reportagem indica outra razão para os negócios com terras terem encolhido em 2013. Os vendedores estariam pedindo um preço pela terra superior ao que ela realmente vale nas condições atuais. Segundo Alexandre Barinotti, presidente da NAI Commercial Properties, empresa americana que opera no ramo imobiliário no Brasil: “Uma fazenda pode até ter o potencial de alcançar um determinado preço. Mas para isso, teria que haver correção do solo ou abertura de outras áreas dentro da propriedade, entre outras melhorias. Muitas vezes, os que querem vender buscam capturar esse preço potencial, mas o mercado não aceita, e não compra”. Essa situação é muito comum também no mercado acionário. Muitas vezes, o comprador vê sinergias como reduções de custos e de taxas de financiamento após a aquisição de uma empresa e, com isso, utiliza essas premissas mais benévolas na avaliação. Com isso, chega a um preço justo maior do que o calculado pelo acionista comum que não utiliza essas reduções de custos em suas projeções.

Recentemente, o controlador da empresa de varejo eletrônico B2W – as Lojas Americanas – e o fundo Tiger Global anunciaram que farão um aumento de capital com preço muito superior aos preços justos calculados pelas corretoras. Com certeza, as premissas utilizadas pelo controlador e pelo fundo diferem (e muito) das adotadas pelos analistas de mercado.

Os exemplos são inúmeros. O importante é que o investidor comum não trate o preço justo como um valor único e imutável. Ele deve servir apenas como referência.

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6 Comentários

  1. Assim como qualquer empresa, a corretora precisa fazer propaganda, chamar a atenção, etc., para atrair clientes. Eles fisgam aqueles que têm dinheiro, mas não querem saber de aprender o básico sobre mercado de ações, e muito menos noção em economia. Na minha opinião, dar dinheiro na mão dos outros, sem saber o que esta fazendo: nunca!!!!

  2. Prezado Andre,
    Em se tratando de precos justos, o que fazer quando uma companhia lanca uma OPA para fechamento de capital, porem o valor ofertado por acao eh bem inferior ao que eu entendo como justo? O que acontece se nao quiser vender? Neste caso especifico, trata-se da oferta da Brookfield.
    Em Marco, estarei no curso!!
    Obrigado, um abraco,
    Luis

    1. Oi Luis
      Individualmente você não tem muito o que fazer. Mas 10% dos minoritários podem pedir um novo laudo de avaliação.
      Caso voce não venda suas ações na OPA e a OPA seja aprovada (2/3 de aprovação pelos minoritários), você se tornará acionista de uma companhia fechada. Mas mesmo que a OPA seja realizada e você não as venda de imediato, há um período após a oferta no qual você ainda pode vender as suas ações.
      Abraço
      André Rocha

  3. Prezado André

    Estou lendo o livro “Valuation”, indicado por você, do Alexandre Póvoa, e estou gostando bastante.
    Chegar ao preço justo de uma ação requer muita informação sobre a empresa que está sendo avaliada, muitas delas difíceis de serem obtidas por um pequeno investidor.
    Eu gostaria de saber se, usando o método do fluxo de caixa descontado, as grandes corretores utilizam os dados divulgados pelas companhias, como p. ex. taxa de crescimento esperada, ou se elas partem de premissas diversas das divulgadas pela própria companhia.
    Gostaria de saber também se você acha viável um pequeno investidor calcular preços-justos razoáveis.
    E por fim, você tem outra sugestão de leitura para quem tem interesse de se aprofundar sobre Fluxo de Caixa Descontado?
    Um abraço e parabéns pelo seu trabalho.

    1. Obrigado Herbert,
      As corretoras utilizam suas próprias estimativas, embora o “guidance” da empresa, muitas vezes, seja considerado.
      Acredito que a importância do fluxo de caixa reside mais em indicar quais são as variáveis chaves do modelo de negócios da companhia do que definir um preço justo. Por exemplo, se aumentarmos um determinado custo em 10% qual será o impacto sobre o preço-alvo. Como uma alteração do câmbio interfere no valor da empresa?
      Gosto do livro do Póvoa, pois ele fala do nosso mercado. Alguns leitores reclamam de que o texto é muito técnico.
      Há muitos posts meus sobre fluxo de caixa. Digite “fluxo de caixa” em buscar e você terá acesso a alguns textos.
      Há muita literatura importada como os livros do Professor Aswath Damodaran (há vários textos dele disponíveis na internet) e o “Valuation” de Tom Copeland.
      Darei um curso sobre mercado acionário em março em São Paulo. Valuation – dividendos, fluxo de caixa descontado e múltiplos – faz parte do programa.
      Abraço
      André Rocha

  4. Aconselho a todos que buscam no “Valuation” ou em outra técnica qualquer uma referencia aos preços dos ativos, que não deixem de ler “O sinal e o ruído” de Nate Silver. Examina exemplos bem sucedidos e fracassados em previsões. Após ler, conclui que no mercado existe muito mais ruído do que sinal.

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