Como a Bolsa se comportará em 2017?

O desejo de prever o futuro é ancião como a humanidade. A mitologia grega é recheada de adivinhos: Cassandra, Calcante, Tirésias. É famoso o Oráculo na cidade de Delfos, onde sacerdotes selecionavam mulheres videntes as quais passavam a ser denominadas Pitonisas. A ânsia de antecipar o porvir permanece. Gostaria como Nostradamus delinear o futuro mirando a água repousada em uma bacia. Não consigo. Mas mesmo sem qualidades mediúnicas, o ofício de analista me exige a construção de cenários prospectivos. A tarefa é inglória. Mesmo sem a ajuda de bacias ou pitonisas, esse artigo busca tecer algumas ideias para o ano em curso.

Quem investiu em ações no último ano não pode reclamar. O Ibovespa apresentou retorno de 38,9%. A bolsa iniciou 2016 depreciada, reflexo da política econômica inconsistente do governo Dilma Rousseff. A consumação do impedimento da presidente e o anúncio de medidas fiscais pelo atual governo foram a senha para a reprecificação dos ativos brasileiros.

O desempenho da bolsa nos últimos 12 meses (eixo Y) e nos últimos 30 dias (eixo X) está no gráfico abaixo. As ações componentes do Ibovespa foram agrupadas em 15 setores. A rentabilidade média de cada setor nos dois períodos foi comparada ao retorno do Ibovespa. O ganho ou a perda de cada setor sobre o índice se encontra no gráfico.  Ele é dividido em quadrantes. Um deles chamado de “derrapando” mostra setores que apresentaram ganhos sobre o Ibovespa nos últimos 12 meses, mas perdem no período mais curto. O segundo denominado “destaque” indica as companhias vitoriosas nos dois períodos. No canto inferior direito, sob a alcunha “recuperando”, temos as companhias com perdas em 12 meses, mas ganhos relativos em 30 dias. Por fim, encontram-se os setores “ficando para trás” com perdas nos dois momentos.

As ações em destaque são as de mineração e siderurgia, bem como as de logística e as do setor financeiro. A recuperação do preço do minério de ferro impulsionou as ações ordinárias e preferenciais de Vale e os papéis de sua controladora, a Bradespar. Embora o minério seja custo para as siderúrgicas, muitas investiram na produção do insumo, conseguindo a autosuficiência. Isso e a expectativa de redução da oferta chinesa de aço contribuíram para a alta das ações. O setor de logística também foi destaque com Rumo subindo 230% em 12 meses se beneficiando do transporte de commodities. Já o setor financeiro teve realce, mas os retornos foram apenas ligeiramente superiores ao do Ibovespa nos dois períodos.

Seis setores foram perdedores nos dois tempos. Alimentos e bebidas, consumo, industriais, telecom e outros sofreram em grande parte devido à demanda interna anêmica. Já no segmento de papel e celulose, a sobreoferta influenciou negativamente as ações de Fibria, Suzano e Klabin.

Educação, imobiliário e shoppings começam a se recuperar em 2017. No ano passado, já não tiveram desempenhos relativos tão negativos. Por fim, Petrobras e o setor elétrico começaram a devolver o bom desempenho de 2016.

E daqui para frente? Mesmo sem os dons da vidência, o leitor concordará que dois cenários se impõem. No primeiro, a continuidade das reformas tende a arrefecer a inflação e promover a contínua redução dos juros. Conforme a capacidade ociosa vá sendo preenchida, novos investimentos podem sair da prancheta. Leilões de concessões também contribuem para a retomada das inversões. Assim, setores que dependem do capital de terceiros como o setor imobiliário, shoppings e logística emergem como destaques. O setor financeiro também se beneficia. Já empresas de consumo, alimentos, bebidas e industriais podem demorar a se recuperar, vitimas ainda da demanda fraca esperada para 2017. Além disso, algumas dessas empresas ainda apresentam múltiplos elevados como Ambev, BRF e Renner. O crescimento acelerado dos resultados é condição para os indicadores como P/L e FV/Ebitda desinflarem. O crescimento consistente da economia ainda não é uma certeza. Esses setores podem ser apostas para 2018.

Petrobras subiu no rastro do otimismo com o novo governo. Agora, depende de ações concretas para a redução da dívida como a venda de ativos e aumento da produção. Olho nessa agenda. Como defensivas, o principal atrativo das elétricas – a distribuição generosa de dividendos – perde o charme com a recuperação da economia. Esse ano, podem ter bom desempenho aquelas que adquirirem os ativos à venda de Eletrobras e Abengoa a preços competitivos.

Em 2016, o mercado pode ter exagerado na estimativa para o preço do minério o que impulsionou o retorno de Vale e o das siderúrgicas. O balanço entre oferta e demanda do minério de ferro parece ainda desequilibrada em favor da primeira. Logo, a realização de lucros não pode ser descartada.

Outro cenário é a não aprovação das reformas ou uma crise política aguda resultado da Operação Lava-Jato. O investimento em ações e em títulos prefixados é prejudicado, favorecendo os papéis vinculados à Selic. Sob esse cenário, mais não posso dizer, a não ser rezar para os Deuses Gregos terem pena de nós.

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3 Comentários

  1. Olá, André, tudo bem? Você disse que o atrativo das empresas do setor elétrico – que são os dividendos – perde o charme com a recuperação da economia. Não seria esperado que fosse o contrário? Com a recuperação da economia, as empresas tendem a consumir mais energia elétrica, que aumentam os lucros das empresas e que, consequentemente, tendem a aumentar os dividendos.

    Se puder explicar o que estou perdendo, agradeceria imensamente.

    Já agradeço pelo texto.

    1. Oi Paulo

      Com a recuperação econômica papeis de beta menor, caso das elétricas, tendem a perder em rentabilidade para o índice. Cias de outros setores tendem a apresentar melhora de receita superior ao das elétricas, pois se beneficiam mais de um ciclo econômico expansionista.

      A receita de elétricas apresenta melhor desempenho do que a de outros segmentos quando a economia sofre, pois tem receitas reajustadas pela inflação. Por isso, em regra, suas ações possuem desempenho melhor em mercados baixistas.

      Abraço

      André Rocha

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