Carta aos políticos com medo de privatizar

A discussão sobre privatização no Brasil é marcado por preconceitos ideológicos. Argumentos racionais são deixados de lado. Mesmo partidos com viés pró-mercado como o PSDB têm receio de defender a bandeira. Não é de se estranhar. O brasileiro se acostumou com o Estado onipresente, executando diversas funções da segurança a mineração. Mais do que isso, o Estado é um excelente empregador, pagando bem e com estabilidade. Uma metáfora, no fim desse texto, pode ajudar os políticos a explicarem os benefícios da privatização à população.

O PSDB e outros partidos evitam o tema privatização com medo de perderem o apoio dos funcionários das estatais e também da sociedade. Apesar de serem responsáveis por privatizações bem sucedidas como a da Vale e a do setor de telecomunicações, os últimos candidatos do partido a Presidência não defenderam o legado. Quem se lembra de Geraldo Alckmin, fantasiado de petroleiro nas eleições de 2006? O provável candidato do PSDB parece indeciso sobre o tema. Está em curso a reestruturação da empresa de saneamento Sabesp. Contudo, o Governo de São Paulo não abriu mão do controle. Como o Estado só possui 50,3% da companhia, caso houvesse uma emissão primária para custear os investimentos, a participação do governo seria diluída e correria o risco de perder o controle. O governo fez ginástica para não transferir a empresa ao setor privado: constituiu uma nova empresa da qual possui 100% e que deterá a participação original de 50,3% da Sabesp. Essa “holding” emitirá novas ações e destinará os recursos arrecadados  ao Estado e à Sabesp. Caso a participação do governo caia para 50% na nova empresa, São Paulo terá o controle da Sabesp possuindo apenas 25% da Sabesp.

O PT defende as estatais, mas apenas discurso não basta. Deixou as finanças de Petrobras, Eletrobrás e Correios em frangalhos.

Mas será tão difícil convencer o eleitorado de que em determinadas situações o melhor é passar as estatais para o setor privado? Será que a Embraer estaria em melhor situação se continuasse estatal? Será que a Telebrás teria tido capacidade para oferecer 236 milhões de celulares, número maior do que o da população brasileira?

Eduardo Rezende, portfólio manager da gestora Jardim Botânico Investimentos, sempre se preocupou com o tema governança. Os fundos da gestora não possuem ações de estatais. Rezende considera que a possibilidade de as estatais executarem políticas públicas cria um conflito de interesses incontornável entre o controlador e o minoritário. Assim, as privatizações podem elevar a eficiência econômica e melhorar a governança. Mas as privatizações também possuem outro aspecto importante: a questão fiscal. Em um país carente de recursos, a resolução da crise fiscal é ainda mais urgente. Rezende criou uma metáfora sobre esse último ponto, mostrando às pessoas comuns como as privatizações podem trazer recursos para a melhora do cotidiano da população.

Imagine uma família composta pelo casal e dois filhos. São pobres e vivem em um pequeno sítio. Uma das crianças possui doença grave e necessita de recursos para o tratamento. A outra, mais velha, é muito inteligente e em boas escolas poderia desenvolver seu talento nato. A propriedade fica em uma região erma e frequentemente é assaltada.

Seu Antonio, o pai, segue angustiado: não consegue resolver nem o problema de saúde nem o de educação de sua família. Os saques a sua propriedade prosseguem. Mas milagres existem. Petróleo é descoberto no subsolo do seu quintal. Geólogos visitam o local e, após algumas pesquisas, constatam que há reservas no valor de R$ 1 bilhão. É necessário investimento inicial de R$ 150 milhões para retirar o óleo. Seu Antonio consulta economistas e uma alternativa é obter empréstimo no banco e ele mesmo prospectar o petróleo. Por outro lado, caso a produção se inviabilize por problemas técnicos ou o preço do petróleo despenque, Seu Antonio deverá arcar com a obrigação. Como não possui qualquer experiência no setor e o financiamento possui riscos, outra solução é indicada. Que tal conceder esse serviço a uma petrolífera em troca de uma remuneração? Seu Antonio é apresentado ao presidente de uma grande petrolífera. Esse se interessa pelo projeto e oferece R$ 100 milhões. Seu Antonio fica indignado: “O óleo vale R$ 1 bilhão e esse porco capitalista me oferece apenas 10%! Que ninharia!”

A revolta o impede de perceber que esse dinheiro resolve o problema de saúde de seu filho, educa com qualidade o outro e pode tornar sua propriedade mais segura com cercas e seguranças. A grana garante o futuro de sua família e de uma futura geração.

É fácil comparar Seu Antonio à sociedade brasileira. Mesmo com o Estado em péssimas condições financeiras, sem conseguir prover saúde, educação e segurança de qualidade, a sociedade se orgulha de seus “patrimônios” mesmo que esses não gerem recursos ou, pior, precisem ser financiados às vezes com os escassos recursos públicos. Não bastando, os políticos achacam os cofres das estatais como denunciado pela Lava-Jato.

Seu Antonio continua ofendido. Ainda não se decidiu o que fazer. Seu filho continua febril. O mais velho deve deixar os estudos. Começa a ajudar o pai na banca de camelô. Na última noite, outra galinha foi roubada do quintal.

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8 Comentários

  1. Penso que faltou comentar sobre o sistema de “fracking” do “Shale Gas” que tem trazido grandes preocupações ambientais não somente nos EUA, mas em grande parte dos países “civilizados”. Também faltou analisar os vazamentos de óleo da Chevron no litoral do RJ ou também o desastre ambiental da plataforma da British Petroleum no Golfo do México em 2010. Ambas grandes multinacionais privadas. Lembro também da guerra da água na Bolívia (Cochabamba) em 2000, etc. Também penso que o dono do sítio deve pensar muito ou reforçar seus controles, antes de tomar qualquer decisão.

    1. André, muito bom artigo. É importante ter argumentos simples na batalha da comunicação, metáforas como esta facilitam a comunicação com o povão, que ao fim define quem será eleito. Lula, goste dele ou não, se destacava por sua capacidade de falar a “língua do povo” com metáforas e analogias.

      PS: Robôs que entram para comentar em sites estão cada vez mais sofisticados, um dia algum deles fará uma conferência sobre a relação entre dois fatores quaisquer, escolhidos aleatoriamente.

  2. ANDRE LUIZ LUSTOSA DE OLIVEIRA

    Apesar da tentativa acho que a metáfora não foi boa, porém o mercado tem dado respostas positivas penso que alguns setores ganharam muito, geraram oportunidades e renda à medida que foram privatizados. Neste cenário atual, é muito bem visto a vinda de privatizações.

  3. O que lhe peço não tem a ver com este seu artigo. Gostaria de saber sua opinião sobre o fato da bolsa ir bem e a economia já travada, caindo um pouco. Nem todas as empresas são exportadoras. Como é possível?

    1. Oi Flavio

      O mercado busca antecipar cenários. Como o valor da empresa depende do fluxo de caixa futuro, o momento conta menos do que as perspectivas. Após anos de políticas intervencionistas, o mercado acredita que o próximo presidente pode ter uma postura mais liberal, incentivando o empreendedorismo. Se esse cenário se materializará ainda não se sabe.

      Abraços, André

  4. Não acho privatizar solução para o Brasil. Essas empresas não favorecem o país em nada. Os economistas dizem que trazem divisas e geram emprego. Vou responder o exemplo do Seu Antônio com outra história. O Brasil é como uma casa que tem piscina, sauna, garagem com vários carros, muitos cômodos, móveis de última geração, na cozinha tudo de bom, micro-ondas, freezer, geladeiras e mesas grandes onde se come camarão da malásia, filé mignon, lagostas e lulas. No entanto, a casa é alugada e nada que tem dentro dela pertence aos proprietários, nem a comida que os alimenta. É uma pena, vivemos num país rico e somos um bando de miseráveis dormindo em cima da nossa própria riqueza por incompetência dos trabalhadores, dos economistas, dos investidores e empresários que há 518 anos só sabem exportar comodities, nada mais que isso. Primeiro foi o pau brasil e a cana de açúcar. Depois o ouro e mais recentemente o café. Agora exportamos galinha, boi, porco, soja, milho, açúcar novamente e ferro. As nossas exportações de produtos industrializados são uma falácia, pois, não temos indústria nacional de peso, são todas estrangeiras. NÃO HÁ COMO TER PROSPERIDADE ECONÔMICA DESSA FORMA. Estamos nessa há mais de 60 anos e até agora eu sinceramente não vislumbro melhora.

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