Bitcoin: o investidor brasileiro aceita correr riscos?

As ideias que temos não surgem do nada. Nossos pais, professores, o meio social no qual vivemos vão pouco a pouco construindo nosso ideário. Nossa visão de investimentos surge da mesma forma.  O país, que sempre praticou juros muito acima dos de outros mercados,criou uma legião de investidores acomodados, avessos ao risco. Mas a mesma sociedade que acusa a bolsa de valores de ser um jogo de especuladores aplica sem parcimônia no mercado de moedas virtuais como o bitcoin.

A B3 (antiga BM&F Bovespa) possuía em fevereiro último 633 mil investidores de ações ou outros ativos passíveis de negociação na B3. Embora esse número tenha crescido fortemente no início da última década, estabilizou-se ao redor de 600 mil investidores desde 2010. O número da B3 está superestimado porque considera o CPF cadastrado em cada agência de custódia. Com isso, o investidor ligado a dois agentes está sendo contado em duplicidade. Por outro lado, alguns investem em ações via fundo. Embora não se possa precisar o número de quantos investem em bolsa, podemos afirmar, sem medo, que os ativos de risco não contam com a simpatia da maioria dos brasileiros.

Segundo a teoria de finanças, o peso que um ativo de risco deve ter na carteira de um investidor obedece a seguinte equação:

Pa,c = (E (ra) – rf) / (A * Var (a)) , onde

Pa,c = peso do ativo de risco “a” na carteira de investimentos

E (ra) – rf = a expectativa de retorno adicional do ativo “a” em relação ao do ativo livre de risco, também conhecido como prêmio de risco do ativo.

A – aversão ao risco do agente

Var (a) – variância do ativo “a”

Assim, quanto maior for a rentabilidade esperada adicional do ativo, maior será o peso desse ativo na carteira do investidor. Quanto maior for sua aversão ao risco, menor peso terá o ativo de risco na carteira. E, por fim, quanto maior for o risco do ativo (volatilidade) medido pela variância, menor o peso do ativo de risco na carteira.

Assim, pela formula, uma das explicações para a pouca alocação em ativos de risco no Brasil pode ser consequência da maior aversão ao risco do brasileiro. Contudo, a principal razão deve ser a rentabilidade histórica elevada do ativo sem risco (Selic) que reduz ou até mesmo torna negativo o prêmio de risco dos ativos arriscados brasileiros, dentre eles as ações de empresas.

Mas o Brasil não é para amadores. O mesmo país, que possui poucos investidores em bolsa, seja por medo do risco ou porque a Selic é alta, já apresenta cerca de um milhão de brasileiros investidos em bitcoin segundo algumas estimativas, produto pouco regulado e, em tese, com risco superior ao da bolsa.

Mas isso não é de causar surpresa. No fim da última década, as ações da petroleira OGX causavam frisson entres investidores pessoa física apesar da volatilidade elevada de suas ações. A empresa, ainda apenas um projeto, conseguia atrair a atenção dos investidores em detrimento de empresas com histórico de rentabilidade muito mais consistente.

E quem não se lembra da engorda de bois da “Fazendas Reunidas Boi Gordo” no fim da década de 90 que previa remuneração de 42% em 18 meses?

Mas o que une bitcoin, OGX e Boi Gordo? A busca por ganho elevado e urgente. A memória do brasileiro foi marcada pela hiperinflação. Naqueles tempos, uma poupança não remunerada era corroída pela inflação. Esse ambiente econômico gerou um brasileiro impaciente, querendo ganhos rápidos. Além disso, não podemos esquecer nossa admiração por apostas. A criação do jogo do bicho ainda no Império mostra como esse gosto é mais antigo do que parece.

Alguns dirão que pirâmides financeiras ou bolhas ocorrem em outros países. É verdade. Mas a grande diferença é que nos Estados Unidos, por exemplo, os investidores já estão acostumados a diversificar suas carteiras com ativos de risco. Aqui, não. O mesmo que critica a bolsa chamando-a de cassino, faz sua fezinha em bitcoin, jogo do bicho e megasena.

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