Até quando dura o namoro do mercado com a bolsa?

Iniciativas importantes para a disciplina fiscal como o congelamento dos gastos reais do governo federal e o início do debate das reformas da previdência e trabalhista deram um fôlego ao mercado acionário brasileiro. Assim, uma pergunta se impõe: com a recente alta, a bolsa brasileira ficou cara?

Desde 2012, atualizo, periodicamente, um gráfico que vi originalmente em um relatório da Santander Corretora. Primeiro, divido o Ibovespa atual pela sua média móvel dos últimos seis meses. A região compreendida acima da média do período mais um desvio padrão significa que o mercado está supercomprado. Nessa zona, uma força vendedora pode ser esperada o que proporcionaria um recuo do índice. No outro oposto, a área abaixo da média menos um desvio padrão indica o inverso: os investidores estão supervendidos e o índice poderia se recuperar caso haja um movimento de compra por parte dos investidores.

O gráfico indica momentos marcantes como a crise de 2008 e o rebaixamento pela S&P do grau da dívida soberana americana em 2011. Durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, o índice oscilou basicamente entre a média mais um desvio padrão e a média menos um desvio padrão, até que, no início de 2014, o mercado desanimado com os rumos da política econômica levou o Ibovespa a transitar na região inferior. Por um breve período, o mercado demonstrou otimismo, durante a campanha presidencial, quando Marina Silva e Aécio Neves mostraram possibilidades de derrotar a candidata petista. Contudo, a confirmação da vitória de Dilma fez o Ibovespa recuar acentuadamente. A nomeação de Joaquim Levy como ministro da Fazenda ainda deu algum fôlego à bolsa, mas conforme o tempo passava e claro ficava que a política econômica permaneceria inconsistente, o Ibovespa voltou a gravitar na área inferior do gráfico. Essa trajetória descendente só foi revertida quando o impeachment da ex-presidente foi confirmado. Desde então o índice tem transitado próximo da média mais um desvio padrão. Em 3 de março, o Ibovespa fechou em 66.785, 7,7% acima da média dos últimos seis meses, mas ainda inferior a média mais um desvio padrão de 11,3%.

Dois pontos devem ser destacados quando se fala desse gráfico. Primeiro, existe um universo de ações de companhias que não fazem parte do Ibovespa. Logo, o estudo acima não abrange essas empresas. E segundo, a análise acima leva em conta o padrão demonstrado pelo mercado no passado recente. Isso não significa que o Ibovespa possa apresentar nova dinâmica.

Diferente do que ocorreu entre 2002 e 2010, a economia brasileira voltou a ser dependente da política. E como a economia afeta a saúde financeira das empresas, a bolsa de valores indiretamente também é afetada pela política. Podemos estar no início de um período de forte expansão da economia se as medidas fiscais responsáveis forem confirmadas e seguidas pelo novo governo que assumirá em 2019. A contínua desalavancagem dos indivíduos e das empresas, a manutenção da inflação próxima ao centro da meta, a volta da solvência da dívida soberana e a consequente queda dos juros podem pavimentar um forte crescimento sustentado pelo investimento e consumo privados.

Por outro lado, caso não haja a aprovação de tais medidas ou o governante eleito na próxima disputa adote uma política fiscal inconsistente como a da antiga presidente, a bolsa e os demais ativos brasileiros terão forte depreciação, enquanto o dólar apresentará forte apreciação.

Essas são as alternativas internas. É claro que devem ser casadas com o cenário externo que, por ora, apresenta-se benigno. A China e os Estados Unidos ensaiam continuar crescendo a taxas satisfatórias. A Europa dá sinais de sair da recessão com a Alemanha apresentando inflação superior a 2%. Isso tem se refletido em uma relação de troca positiva entre os preços dos bens que exportamos e os dos que importamos, favorecendo nossa balança comercial conforme o Valor Econômico estampou em sua manchete na última semana.

Hoje, o mercado namora o primeiro cenário, por isso, o Ibovespa se encontra próximo à média mais um desvio padrão. É o cenário mais provável, mas nada que o desenrolar da Operação Lava-Jato ou a sentença da chapa Dilma-Temer ou a ainda incerta gestão de Donald Trump não possam desmenti-lo.

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10 Comentários

  1. Ok, André. Mas você não respondeu a questão de modo objetivo. Qual a sua opinião sobre a bolsa, tanto Ibovespa quanto demais empresas, de um modo geral, nos próximos anos?
    abs
    Alexandre Resnikoff
    Obs. já fiz seu curso no Rio de Janeiro e nos encontramos no Congresso de Value Investing em SP.
    alexandre@jarc.com.br

    1. Oi Alexandre

      Estou otimista. O cenário de um círculo virtuoso de 8 anos (até o fim do próximo mandato) hoje é maior do que 60%.

      Contudo, a agenda fiscal não está totalmente consolidada, pois esse governo é interino. Por isso, a cautela.

      Os setores que mais sofreram com a recessão em decorrência da queda da renda e aumento dos juros devem se beneficiar: consumo, construção civil, shoppings. Setores com receita em dólar devem sofrer mais.

      Abraços

      André

    1. Oi Bruno

      Fiz esse cálculo há alguns anos. Não necessariamente teriam grandes alterações, pois esse gráfico é feito em relação a média dos últimos meses. Ou seja, compara-se o último indicador em relação à media recente. Não é o numero índice absoluto do índice.

      Abraços

      André

  2. Interessante essa métrica, André Rocha!

    Outro dia alguém chamou a atenção para o fluxo estrangeiro que não para de aumentar na bolsa. Uma boa parte dos analistas veem isso como um sinal de bull market que virá por aí. Assim como a saída recorde de pessoas físicas da bolsa também indica bons ventos para o Ibovespa.

  3. André, na análise gráfica este indicador é a banda de Bolinger, que acompanha a media móvel e n x desvio padrão acima e abaixo da média. Da forma que você/ Santander traçaram não aparecem os movimentos dos preços já que no gráfico eles são considerados o ponto “0”, isso dá uma falsa impressão de que os afastamentos são mais consistentes do que a realidade.

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