A medida de avaliação que Warren Buffett aprova

Em entrevista à revista Fortune Magazine em 2001, Warren Buffet, o conceituado investidor americano, falou sobre o indicador que compara o valor de capitalização das companhias registradas em bolsa com o PIB: “É provavelmente a melhor medida no qual se encontra o ´valuation` em qualquer momento específico.”

O site do Banco Mundial fornece essa relação para diversos países o que mostra a importância da medida.

Entenda os principais atributos dessa métrica e como o Brasil se encontra em relação aos outros países. A bolsa está cara sob essa ótica?

Tomei conhecimento dessa medida há alguns anos quando li o excelente livro “Stocks for the Long Run”, de Jeremy Siegel. O numerador representa a soma do valor de mercado das companhias negociadas em bolsa. Em outras palavras, o somatório do total de ações das companhias multiplicado pela cotação do papel de cada empresa. Já o PIB é alocado no denominador.

Podemos dizer que países economicamente mais desenvolvidos tendem a apresentar indicador mais elevado, pois terão um mercado de negociação mais ativo, logo maior número de companhias abertas. Em 2015, de acordo com o Banco Mundial, o indicador agregado de todos os países estava em 96,8%, muito puxado pelos Estados Unidos. O Brasil apresentava indicador de 27,2%, inferior ao de países como Estados Unidos (139%), Japão (111,7%), França (86,3%), China (74,0%), Reino Unido (65%) e Alemanha (51%).

Outro ponto que influencia o índice é a exposição internacional das companhias domésticas. O Chile é bom exemplo. Possui grandes exportadoras, sediadas em uma economia pequena. Isso explica seu indicador elevado de 79,1%.

O indicador pode superar 100%, pois o valor de mercado das empresas é a diferença entre o estoque acumulado de capital e suas obrigações, enquanto o PIB é o fluxo anual do valor agregado criado pela economia em um ano.  Simplificadamente, se compara uma medida de balanço contra outra da demonstração de resultados. Quantas empresas não apresentam patrimônio superior a suas receitas anuais?

Outra característica que afeta o indicador é como as companhias se financiam. Quando utilizam mais dívida tendem a deprimir o indicador e vice versa.

Em tese, quanto mais elevado o índice, mais caro está o mercado acionário local. Contudo, dadas as diferenças entre países explicadas acima, quando se analisa um período, é melhor concentrar-se em apenas um país e não fazer comparações entre países.

Pegando dados do PIB no Banco Central e o valor de mercado das companhias listadas na B3 (antiga BMF&Bovespa), construí um gráfico com o índice desde 2000. A capitalização é referente ao universo de companhias com registro na BMF&Bovespa e não apenas àquelas integrantes do Ibovespa. O máximo de empresas registradas no período foi em 2000 – 459 – e o menor em 2016, 349.

O índice atingiu o ápice de 91% em 2007, véspera da crise global e o menor de 29% em 2002 como resultado do receio do mercado com a eleição do PT.

Com a desastrosa gestão fiscal de Dilma Rousseff, o indicador despencou de 52% em 2011 para 32% em 2015. Interessante notar que há uma diferença entre o número apresentado pelo Banco Mundial e o derivado dos dados do Banco Central e B3. Com o impeachment e a adoção de uma agenda mais sensata economicamente, o índice avançou para 39% em 2016, mas ainda com 20% de desconto para a média do período de 49%.

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25 Comentários

  1. Parabéns pelo artigo é muito reconfortante ler um artigo com um ótimo conteúdo, sem ranço de “press release” ou algo muito obvio como declaração de um “operador de mercado”.

    Pela leitura uma situação me veio a mente, que em parte poderia depreciar ou apreciar os preços das ações e em decorrência o valor de mercado.

    Ela esta ligada ao fluxo de capitais externos que poderia ter um efeito direto sobre o valor das empresas, mas como você mesmo disse, balanço patrimonial X demonstração de resultado.

    Forte Abraço.

  2. Olá,
    Excelente artigo. Meus parabéns!
    Mas na minha opinião, a comparação com a média não é a mais precisa…diria que um ano “normal” da economia Brasileira é o ano de 2006…logo, em 2018, pode ser que o índice “mire” o de 2006, com cerca de 63%…um bom caminho de subida.

  3. Bom dia André.
    Parabéns pelo post. Muito direto e explicativo!
    Você comentou que “O site do Banco Mundial fornece essa relação para diversos países o que mostra a importância da medida.”.
    Entrei nesta página http://www.worldbank.org/pt/country/brazil. mas não achei essas informações que você comentou.
    Você poderia indicar de onde exatamente conseguiu essas informações?
    Desde já obrigado!

  4. Prezado André,
    Eu consultei o site da B3 para tentar encontrar o valor de capitalização das companhias nos anos referentes ao seu estudo (200/2016), mas só encontrei o valor atual. Você sabe me dizer onde encontro esses valores com precisão ?
    Achei muito interessante o seu estudo e gostaria de me aprofundar mais nesses dados.
    Obrigado.

  5. Olá, construi o mesmo indicador com inicio em 1988, com os dados da Bolsa (dolarizados), obviamente nessa data a relação era ínfima, mas a partir de 1994, ficou oscilando numa banda de 20 a 50% até o super ciclo das commodities que explodiu pra cima, em resumo, não seria prudente desconsiderar esse super ciclo? Desconsiderando, estaríamos historicamente próximos a banda de cima..ou seja num valuation caro ex-super ciclo.
    Abraços

    1. Oi Ricardo

      Não acho que tenha que se retirar o super ciclo, pois hoje a China é uma economia grande que demanda commodities o que não ocorria antes de 2000. Embora a demanda possa diminuir, a China continuará como grande importador, influenciando o preço.

      Abraços

      André

  6. Não serve pra países onde a intervenção política influi demais na economia.

    Nos países desenvolvidos (ou nos emergentes mais ortodoxos, que são mais estáveis) até dá pra discutir essas teorias de “está barato” pois a desvalorização dos ativos geralmente decorre de renda comprometida, liquidez baixa, alguma bolha que estourou, ou ajustes de magnitude das expectativas. Essas coisas são temporárias e não comprometem o sistema.

    Já nos países instáveis o barato geralmente decorre do aumento do risco. Uma expectativa de que o sistema vai se deteriorar pois diferente dos países desenvolvidos a chance de isso acontecer é bem mais concreta. Brasil tem Estado agigantado, com gastos descontrolados e é difícil mudar isso pois há forte lobby dos que são beneficiados (servidores públicos, sindicalistas, “empresários” favorecidos pelo BDNES, CADE e congresso nacional que impedem que surja no Brasil um mercado aberto com diversas empresas concorrendo, etc, fora o fim do bônus demográfico em que o país surfou na última década. Há risco real de o país quebrar daqui a 10-20 anos e é isso que o mercado desconta no preço de tudo (empresas na bolsa, empresas fechadas, imóveis, etc)

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